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17-09-2008 ////////

Bibi faz rir

Atriz retorna às comédias em "Às favas com os escrúpulos", texto de Juca de Oliveira com direção de Jô Soares

A grande dama está bêbada no palco. Troca as palavras, e as que ocupam o lugar das escritas por autores refinados
são palavrões descontrolados. A platéia toma um baita susto... e depois cai na gargalhada, para felicidade total de Bibi Ferreira. Em “Às Favas Com os Escrúpulos”, peça de Juca de Oliveira (e com direção de Jô Soares) que estréia dia 25 no Teatro Clara Nunes, a diva desce do pedestal, esquece as canções de desamor de “Piaf” para expor com graça a dor de uma mulher que vê seu casamento de 43 anos ruir. E se entende por música com a platéia.

 

“É algo orquestral a comédia. É muito difícil, você de certa forma tem que reger platéia e ter controle absoluto do tempo. Se você começa uma piada e o público ri da primeira arte dela, você tem que saber parar e depois retomar o texto no mesmo clima, para que ele ria também da conclusão. Quase como solos de jazz”, explica Bibi. “São tolos os que insistem em classificar a comédia com algo menor”, decreta a atriz com a autoridade que lhe dá uma longa e vitoriosa carreira.

 

“Às Favas”, de certa forma, é um texto de encomenda. Não uma encomenda formal, com data de entrega marcada. Mas um pedido baseado na amizade e com prazos apenas afetivos. Bibi um dia pediu a Juca que escrevesse algo para ela. O tempo passou, nada foi cobrado, Juca se recolhe na fazenda onde vive, e esse dia ressurgiu com um belo presente: “Ele disse: ‘olha, eu escrevi para você!’. E frisou que a Lucila foi criada para que eu interpretasse”, comemora Bibi.

 

A Lucila em questão é uma professora universitária, casada com um senador (o próprio Juca de Oliveira em São Paulo e Gracindo Jr.) que acaba se apaixonando por uma mulher mais jovem (Bárbara Paz). Com o adultério aparecem também as falcatruas do marido, numa comédia que é de costumes e também política e, segundo Bibi, leva o público às gargalhadas.

 

“As coisas são muito próximas do público, a situação política está nos jornais, ele reconhece os fatos. E a situação do adultério então... (risos). Existe uma coisa muito curiosa que são os risos isolados, em momentos que não são necessariamente de humor. Quando o adultério é revelado e meu “marido” diz ‘acho melhor dormir num hotel hoje’, volta e meia surge uma gargalhada isolada, de quem ‘viveu o problema’”, se diverte Bibi.

 

Dividir o palco com o autor na temporada paulista (Juca não pode vir por problemas de saúde foi muito prazeroso para Bibi. “Ele fazia ajustes no tempo da fala, entonações, além de sempre trazer atualizações para a parte política”, lembra. Mas a parceria com Gracindo não é menos festejada. “Somos grandes amigos, fizemos o que considero o mais redondo “Brasileiro, Profissão Esperança”, o dirigi em “Mito, Mulher, Maysa”, com ele e aquela cantora maravilhosa, Waleska... é muito importante que o entrosamento no palco se estenda para os camarins”, festeja a atriz.

 

Bibi está toda prosa e comemora troca com o público que acontece especialmente na comédia, e mais ainda numa comédia escrita especialmente para ela – o espetáculo tem 74 páginas e sua personagem tem fala em 70 delas. Sua cena de bebedeira e palavrões dura uns vinte minutos e é uma apoteose de riso. “Aquela mulher classuda perde a linha e o público se diverte. E também reconheço, se surpreende ao ver a atriz que canta com tanta pompa e delicadeza em peças como “Piaf” se expor daquele jeito”, diz Bibi feliz da vida. Afinal, foi para isso que um dia ela se tornou atriz.

 

BIBI: AMIGA DE FÉ, IRMÃ CAMARADA

 

(Jô Soares)

 

“No dia 28 de fevereiro, minha amiga Abigail fez 66 anos de teatro”. Abigail estreou ao lado do pai, Procópio, e consagrou-se nos palcos com o nome de Bibi Ferreira.

 

De repente, depois de 54 anos onde participou de musicais de grande sucesso, Bibi, que além de atriz dramática, show-woman, “vedette” de grandes revistas do Parque Meyer em Portugal, cantora de voz privilegiada, é também uma extraordinária comediante, resolve voltar à cena numa comédia. Uma comédia política, com lances e reviravoltas imprevisíveis, uma crítica mordaz a todo o absurdo e o ridículo de quem exerce o poder.

 

Estava me preparando para viajar de férias, quando recebo o convite para dirigir essa comédia. Claro, cancelei a viagem.

 

O texto é também o pretexto para o reencontro com um amigo de muitos anos: Juca de Oliveira, autor da peça. Já não sei o que me agrada mais, o autor ou o ator. Talvez o melhor mesmo tenha sido o nosso reencontro. O tempo às vezes afasta os amigos, mas não as amizades.

 

Completando o elenco, mais quatro atores de raro talento. Interpretam seus personagens com precisão cirúrgica: Gracindo Júnior, Bárbara Paz, Neusa Maria Faro e Daniel Warren completam a festa que tem sido esta montagem.

 

É difícil escrever sobre pessoas que se admira. A proximidade pode levar a distorções, ao exagero. Hesitei, tive medo de parecer parcial. Depois me perguntei: – “Que pudor bobo é esse?”.

 

E respondi em voz alta, falando comigo mesmo, usando o título intrigante do espetáculo: “Às Favas com os escrúpulos”!

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