Arquivo

26-12-2007 ////////

"Temos que fazer teatro bom e pronto"

Indicado ao Shell, Dudu Sandroni critica a própria classe ao analisar a conjuntura teatral de hoje e acha que a saída é reconquista a classe média

Teatro é como oxigênio na vida de Dudu Sandroni – presente 24 horas por dia. Inclusive em casa, já que o diretor e produtor é casado com a atriz Kelzy Ecard, que atuou em “Rasga Coração”, de Vianninha, pela qual está indicado ao Prêmio Shell. Ele ainda dirigiu “A Vida É uma Ópera”, de Jandira Martini, com as veteranas Maria Pompeu, Thereza Amayo e Manuella Machado, em cartaz no Teatro Gláucio Gill.

 

Mas Sandroni atua além das coxias. Professor da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), é um dos principais dirigentes da Associação dos Produtores Teatrais do Rio de Janeiro (APTR), onde ajuda a pôr na rua a campanha Teatro para Todos – que oferece descontos para dezenas de peças e acaba de encerrar sua quinta edição – e a elaborar projetos e propostas para governantes e empresários. “Mas tudo que conversamos são opiniões minhas, não da APTR”, avisou, delicadamente, lá pelo meio da entrevista em que fala de sua carreira e do fazer teatro.

 

VOCÊ FOI CONVIDADO POR MARIA POMPEU PARA DIRIGIR “A VIDA É UMA ÓPERA”. O QUE ESPERAVA E O QUE ENCONTROU NESSE TRABALHO?


Aceitei o convite em função dela, uma atriz genial que tem uma energia de iniciante. Ela me ligou e disse: ‘Quero fazer, mas não tenho patrocínio’. Isso me deixou desconcertado, foi impossível dizer não. Com isso, ninguém pode dizer que não tem como fazer teatro. Depois é que fui conhecer as outras atrizes e o texto da Jandira Martini, um tipo de dramaturgia que faz um sucesso danado em São Paulo e aqui, nem tanto – comédias de costumes que abordam questões políticas. Entrei meio no escuro, mas foi um processo muito bacana e divertido.

 

VOCÊ DIRIGE ESPETÁCULOS, JÁ FOI GESTOR DE TEATROS E SE ENVOLVE NA CRIAÇÃO DE PROJETOS, COMO O TEATRO PARA TODOS. ACHA QUE A CLASSE ARTÍSTICA ESTÁ MAIS COMBATIVA?


Acho que a classe artística deu saltos importantíssimos em consciência política. A APTR, que existe há cinco anos, é uma importantíssima instituição para dar voz ao produtor. Temos ainda a Associação de Grupos e Companhias, o CBTIJ (Centro Brasileiro de Teatro para Infância e Juventude) e a Sbat (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais), que Orlando Miranda e Aderbal Freire-Filho estão lutando para levantar. Então, do ponto de vista da organização política, a classe avançou muito.

 

VOCÊ ESPERAVA A INDICAÇÃO PARA O PRÊMIO SHELL? QUAL A IMPORTÂNCIA DAS PREMIAÇÕES?

 

É uma alegria muito grande porque isso sempre passou ao largo da minha carreira. Sou diretor há 20 anos e, apesar do reconhecimento no teatro infantil, ele só é visto por quem é ligado a este universo. E em teatro adulto sempre dirigi peças em lugares alternativos. ‘Rasga Coração’ foi quase uma estréia. Prêmios são importantes, ajudam a criar parâmetros para a produção.

 

APESAR DOS PATROCÍNIOS E LEIS DE INCENTIVO, APENAS MUSICAIS CONSEGUEM REUNIR UM GRANDE ELENCO. MUDOU O PÚ­BLICO OU MUDOU O TEATRO?


Mudou tudo. Não sei, exatamente, mas acho que tem uma grande equação a ser elaborada, onde entram questões como investimento público, qualidade artística, preço do ingresso, representatividade política da categoria... Estou vivendo isso em ‘Rasga’, que é sucesso de público e crítica: seus nove atores profissionais não conseguem uma remuneração digna com o que ganham de bilheteria. Mudar isso é um trabalho de longo prazo e o primeiro passo é reconquistar o público adulto de classe média.

 

HOUVE UMA ACOMODAÇÃO DE TEMAS? OU AINDA HÁ ESPAÇO PARA A RUPTURA COMO BASE DA CRIAÇÃO ARTÍSTICA E PARA O TEATRO CAPAZ DE TRANSFORMAÇÃO?
 

É preciso haver cada vez mais montagens que despertem interesse sem cair no populismo barato. Acho que a gente iludiu muito o público com espetáculos ‘cabeça’ que, em sua grande maioria, eram vazios. Peças com um bom texto e bons atores ficaram meio esquecidas. Ainda há espaço para a ruptura, mas acho que o novo, hoje, quase que estaria perto do velho. E isso é ruptura com a platéia. No teatro infantil aprendi que artista tem que fazer teatro bom e pronto.

 

A RELAÇÃO ENTRE A PLATÉIA E O QUE SE PASSA NO PALCO ESTÁ DESGASTADA?


Está desgastada porque o advento da platéia de terceira idade e de jovens esperando comédias não alimenta a mudança do teatro. Temos que nos reaproximar do público que quer assistir aos espetáculos interessantes e que respeitem seu intelecto e senso estético. A classe média está afastada por causa da meia-entrada e é ela que pode sustentar o teatro.

Compartilhe! Envie para um amigo!