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17-10-2007 ////////

Laura Cardoso - 80 vezes teatro

Atriz divide o palco com jovens atores na temporada paulistana e vê neles sua "Fonte da Juventude"

Aos 80 anos, ela esbanja fôlego de adolescente. A atriz Laura Cardoso está no elenco da peça “Hoje Eu Me Chamo Dinorá”, o primeiro texto de rádio de Janete Clair adaptado para o teatro. A veterana divide palco com jovens talentos do humor, como Fabiana Karla e Daniele Valente, o que para ela é um deleite. “Adoro trabalhar com gente nova”, diz, entusiasmada com a nova empreitada.

 

Depois de encarar toda a densidade do autor sueco Lars Norén, em “Outono Inverno”, com direção de Eduardo Tolentino – espetáculo que proporcionou um verdadeiro duelo de talentos entre Laura e Sérgio Britto no ano passado –, a atriz resolveu ir para o lado oposto da dramaturgia: a comédia. Maria Carmem Barbosa é a responsável pela livre adaptação do texto de Janete Clair. Foi ela também quem convidou Laura para encarnar Elisa, uma esperta senhora que comanda o desenrolar da confusão da trama. “A certei muito em ingressar neste projeto. Primeiro porque é uma homenagem a Janete que foi minha amiga na adolescência e também por toda a equipe envolvida”, diz Laura.

 

Laura Cardoso nasceu em São Paulo, em 1927. Filha de portugueses, é mãe, avó e bisavó dedicada, mas foge do perfil tradicional, já que possui uma intensa carreira de mais de 60 anos de atuação e um vigor de dar inveja. Os colegas brincam que sua idade é um pequeno detalhe que chega a soar estranho devido à sua desenvoltura e dedicação a cada projeto que realiza. “Ela tem uma energia impressionante”, afirma Fabiana Karla. A comediante, aliás, caiu nas graças de Laura que não se cansa de elogiar o desempenho da moça, que retribui: “Só temos a aprender ao seu lado. Com Laura não trememos nas bases, a gente baba”.

 

“Ela é uma fortaleza. É difícil associar esta figura que impressiona no palco com a sua idade”, comenta Arlete Salles. As atrizes se tornaram amigas quando atuaram juntas em “Todo Mundo Sabe Que Todo Mundo Sabe”, no final da década de 90, obra de Maria Carmem Barbosa e Miguel Falabella. Em 2003, participaram de “Veneza”, também de Falabella. “Laura é uma artista visceral. Por menor que seja o papel, sua interpretação nunca é simples”, diz.

 

“Laura é uma mulher moderna”, afirma Maria Carmem. “É uma das grandes damas do teatro brasileiro. E faz de tudo, do drama à comédia”. Laura acha graça dos predicados a ela ofertados e acredita que o ator tem a obrigação de acompanhar a evolução do seu tempo. “As coisas se transformam e é importante observar os novos caminhos”, analisa. A veterana confessa que sua “fonte da juventude” está na mocidade. “O jovem sempre traz elementos novos, sonhos e aspirações. Tem um frescor cativante”, avalia. “Aprendo com eles e acredito que aprendam comigo. É uma grande troca de idéias e experiências”. Outro fator fundamental é a paixão pela arte. “Tenho prazer em exercer a profissão, estar no palco. Representar é muito difícil: é necessário entrega e muita dedicação”. Um esforço reconhecido. No fi m do ano passado, a atriz recebeu em Brasília a Ordem do Mérito Cultural, homenagem do Ministério da Cultura aos artistas que contribuem para a divulgação da cultura brasileira. “O maior mérito para um ator é a credibilidade de seu trabalho”.

 

Neste mês, a atriz se divide entre a temporada paulista de “Hoje Eu Me Chamo Dinorá” e as gravações de uma participação especial na próxima novela das seis da TV Globo, “Desejo Proibido”. E já tem convite para uma nova montagem teatral no Rio de Janeiro. “É possível que eu aceite este novo trabalho. Ainda mais porque no Rio sempre fico hospedada em hotel, para facilitar o dia-a-dia”. Opinião de quem entende bem o significado da palavra modernidade.

 

HISTÓRIA DE ENCONTROS

 

O gosto pelo teatro surgiu na infância, aos seis anos, época em que a atriz brincava de “teatrinho” com a garotada nas calçadas do bairro do Bixiga, na Bela Vista, onde cresceu. Aos 15 anos deu adeus ao nome de batismo Laurinda de Jesus Cardoso para iniciar carreira no rádio como Laura Cardoso. Passou pela Rádio Tupi e a Difusora, onde conheceu Fernando Baleroni, com quem se casou e teve duas filhas. Na década de 50 iniciou sua carreira na televisão, no programa “Tribunal do Coração”. Após ganhar experiência com os teleteatros, estreou em novelas com “Ciúme”, em 1954. E de lá pra cá foram mais de 50 trabalhos, entre eles, “João Brasileiro, o Bom Baiano”, “Pão Pão Queijo Queijo”, “Mulheres de Areia” e “Salsa e Merengue”.

 

Seu début em teatro foi em 1959, em “Plantão 21”, de Sidney Kingsley, dirigida por Antunes Filho e com Jardel Filho no elenco. O palco é, sem dúvida, sua grande paixão e a atriz já perdeu a conta de quantas montagens participou. “Não faço a menor idéia do total de peças em que atuei”. O fato é que o tablado lhe rendeu muitos prêmios e encontros importantes: como com o diretor Gabriel Vilella, em “Vem buscar-me que ainda sou seu” (1990), e com o ator Sérgio Britto, em “Outono Inverno”, no ano passado. Em 1964 estreou no cinema em “Imitando o Sol”, de Geraldo Vietri. Seu mais recente trabalho na telona foi em “Muito Gelo e Dois Dedos D´Água”, de Daniel Filho.

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