Arquivo
18-04-2007 ////////
Humor em pequenas doses
Na forma de esquetes ou do tipicamente americano stand-up comedy, os espetáculos de humor estão na crista da onda, lotando teatros e revelando novos talentos que, se é um sucesso de público, ainda encontra narizes torcidos na crítica e na classe artística. “Dificilmente as comédias e seus atores são premiados”, assinala o roteirista, produtor e ator Bruno Mazzeo, que se define um “humorólatra”. Grace Gianoukas, criadora de “Terça Insana”, bate forte: “Isso de gênero menor é papo de quem quer se destacar da massa de ‘ignorantes’.”
O boom atual é dos esquetes, nos quais atores interpretam tipos e situações inspiradas no cotidiano, com a participação eventual de convidados famosos e roteiro nada estático. Não seria exagero dizer que “Terça Insana”, que estreou em São Paulo há seis anos, é a nave-mãe cercada de filhotes bemsucedidos. Sejam atores, como Marcelo Mansfield (em cartaz com “Clube da Comédia”), Marcelo Médici (que estourou com “Cada um com seus Pobrema”) e Ângela Dip (que estrela “Humor de Quinta”), ou espetáculos com estilo semelhante. Entre esses, tal vez o de maior sucesso seja o carioca “Surto”, em cartaz há três anos e meio, surgido de uma sugestão da atriz Thaís Lopes aos amigos recém-formados na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), depois de assistirem à “Terça Insana”.
A idéia inicial era se apresentar em bares e cafés-teatro. “Fizemos a peça com mil reais, para pagar o pessoal da técnica e comprar alguns adereços”, lembra Wendel Bendelack que, na época, dividia-se entre o palco e as bancas de advocacia. A carioca “Salada”, com Luis Salém e Alexandra Richter, é outra comédia em esquetes que vem emendando temporadas nos palcos cariocas, desde janeiro. “Fico feliz porque esses atores estão criando, escrevendo seus textos e não apenas nos imitando ou colando piadas já conhecidas”, afirma Grace.
Assim como os esquetes, estão em alta as stand-up commedies (comédias em pé, na tradução literal do inglês), gênero que consiste em um ator ou mais que, em pé no palco, se dirige à platéia sem recurso de cenário, maquiagem ou figurino. “Os Segredos que só os Homens Têm” e “Comédia em Pé”, no Rio, vivem lotadas. “Já vi ‘Co média em Pé’ seis vezes. É um stand-up genuíno, muda toda semana”, co menta Mazzeo. Em São Paulo, destacam-se “Clube da Comédia” e o projeto “Comediantes em Pé de Guerra”, dos Parlapatões, Patifes e Paspalhões, com apresentações semanais gratuitas em que um comediante convidado de clara guerra a algum tema, pessoa, assunto ou instituição para a diversão da platéia que assiste à performance. Hoje, por exemplo, sobe ao palco Rafinha Bastos, um expoente da nova geração do humor. O Parlapatões também acaba de realizar o I Festival de Cenas Cômicas, do qual participaram 60 grupos. “Foi uma forma que encontramos para estimular a criação de novos espetáculos”, conta Hugo Possolo.
Os novos talentos do humor talvez sejam os expoentes mais visíveis desse estouro da comédia nos palcos. Rodrigo Fagundes (de “Surto”), Marcelo Médici, Marcius Melhem e Leandro Hassum (de “Nós na Fita”) são alguns exemplos de atores cômicos absorvidos pela TV. Se os detratores acham que a comédia é um gênero ‘fácil’, os atores discordam. “O humor não engana, é o caminho mais rápido para atingir a platéia”, comenta Bendelack. Ângela Dip completa: “Não é um porto seguro para ninguém decolar na pro fi ssão. É um desafio sem disfarces”.
O riso da platéia é a maior prova da qualidade do trabalho. “Se a piada for boa, o espectador ri na hora. No drama, só há uma resposta no fim do espetáculo, com os aplausos. Esse retorno imediato da comédia mexe com a auto-estima do ator”, analisa Ângela, que se lembra de uma apresentação em que o público ficou estático, sem reagir. “Eu quis que o chão se abrisse sob meus pés, mas fui até o fim”. Seu parceiro de cena, Sérgio Rabello, dá a sua receita: “Quem trabalha com comédia deve fazer um humor inte ligente sem ser pretensioso, sutil sem ser hermético e malicioso sem ser grosso.”
Fórmulas de sucesso, no entanto, ainda não foram inventadas. Para Grace, é fundamental ter caráter, idéias próprias, humildade e, claro, timing de comédia. “Quem se acha mais inteligente ou dotado do que o público, ou mesmo se deixa deslumbrar com assédio e fotos em revistas, acaba estagnando seu potencial criativo”, afirma. Bruno Mazzeo resume o espírito da comédia com uma frase de seu pai, Chico Anysio. “Meu pai diz que só há dois tipos de humor: o engraçado e o sem-graça. Nunca me esqueço disso”.