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Celso Frateschi/ Foto Agueda Amaral

07-07-2010 ////////

Sobre o nosso teatro

Por Celso Frateschi

Há momentos na vida em que o pó dos tempos se acumula sobre as nossas verdades. O que nos movia adiante passa a nos paralisar, e o pó umedecido pelos lamentos seca numa triste argamassa de certezas que nos petrifica. Romper a estagnação é tarefa dos artistas. Foi esta busca que nos levou às provocações de Fiódor Dostoievski, primeiro com "O Sonho de Um Homem Ridículo" e agora com "O Grande Inquisidor".

Desejamos a inquietação e a generosidade desse artista que mergulha sem rede de proteção nos mistérios da alma humana. Buscamos no seu sonho, ridículo como todos os sonhos, aquilo que rejuvenesce e religa a velhice do contemporâneo ao imaginário da infância da humanidade. Talvez, mais do nunca, necessitemos de um projeto ridículo de nos entendermos como um todo. Talvez, ainda, possamos ser ridículos o suficiente para crer em algumas criações da humanidade como a ética e a estética. Talvez a beleza, mesmo que ridícula, ainda possua algum sentido. Quem sabe as coisas são como são porque as forjamos assim e não por que são inevitáveis e por isso valha pena o ridículo de tentar transformá-las?

Foi com essas inquietações que chegamos ao texto do "O Grande Inquisidor". Com ele, descemos agora ao calabouço da alma humana. Para o lugar onde entramos em contato com os nossos extremos, nossa beleza e nossa repugnância, nosso amor e nosso terror.

Por mais que os paradigmas do sucesso ditados pelos “grandes inquisidores” de nossa crítica jornalística, ansiosos para lançar à fogueira aqueles que não seguem os seus ditames, recomendem o superficial, o movimentado, o alegre e o simplório como regra de qualidade e definindo o que é e o que não é teatro, nós continuaremos a produzir a arte teatral, gerando prazer e conhecimento ao nosso público que felizmente desobedece ou, melhor ainda, ignora cada vez mais os nossos inquisidores.

Neste embate contra a superficialidade e a ignorância, o teatro é apenas um bisturi contra mísseis atômicos trans-oceânicos numa guerra injusta e interminável. A missão da gente de teatro é também ética ao recuperar permanentemente a magia inerente à sua arte. O teatro comercial consegue se salvar com seus teatros shoppings-hotéis-estacionamentos e leis de incentivo.

O teatro sem adjetivos necessita ser recuperado e para isso precisa mudar reinventando a sua necessidade, se voltando ao prazer, ao conhecimento e interagindo com a complexidade do terceiro milênio. Necessariamente para poucos é nossa responsabilidade qualificar ética e esteticamente nossos espetáculos. Um bisturi é mais eficiente que um míssil quando atinge cirurgicamente.

Cremos ser possível um teatro sem adjetivos. Um teatro que respeite a criatividade e a inteligência da platéia, que evite a soberba preguiça de que tudo já foi feito e se lance na aventura do desconhecido. Que não se limite e nem se intimide com as aparências. Que assuma o homem como seu trabalho. Que perceba que cada época se produz e que o artista se produz ativa, crítica, arriscada e prazerosamente!
 

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