Artigos
13-10-2009 ////////
Uma aula
Sérgio Roveri
Nos últimos tempos, tenho sido convidado com certa frequência para conversar sobre dramaturgia contemporânea com jovens estudantes de teatro de São Paulo e do interior paulista. Na primeira vez em que resolvi aceitar o convite, fiquei assustado ao receber a agenda do evento: o que eu julgava ser um bate-papo de trinta minutos havia se convertido, por decisão dos organizadores, em uma palestra de três horas diante de uma plateia de mais de 60 pessoas. Ingenuamente, passei duas tardes preparando uma breve aula sobre a história do teatro, que começava com os gregos, passava pelos autos da Idade Média, abordava Shakespeare e Molière em menos de dez minutos, pulava para Ibsen e Tchecov, citava os grandes dramaturgos americanos do século 20 até terminar nas experiências de Heiner Müller e na total fragmentação das cenas e da linguagem empregada por alguns grupos contemporâneos. Ou seja, a moderna dramaturgia.
Ao me ver diante daquela plateia jovem e de uma curiosidade obsessiva, percebi que eu tinha desperdiçado aquelas duas tardes – eles não estavam nem um pouco interessados na história do teatro, em parte por que já tinham visto quase todos aqueles tópicos na escola e em parte por que a história pregressa realmente não lhes dizia respeito. Eles estavam ansiosos por saber – e contavam com minha inesperada ajuda para isso – o que fazer com suas próprias vidas e carreiras. Para ser mais específico: que atalho eu poderia lhes apontar que encurtasse o caminho dos bancos escolares até o palco. Minha garganta secou e as pernas tremeram – mas não era hora de amarelar ali na frente de todos eles. Eles não queriam saber da história que já havia sido escrita e que eu havia me preparado para reprisar. Queriam que eu os ajudasse, de alguma forma, a escrever sua própria história. E, preferencialmente, que dentro desta história houvesse lugar para uma palavrinha mágica que todo jovem ator parece buscar: sucesso. Ou reconhecimento (cá entre nós, eu prefiro esta segunda).
Deixei as anotações de lado e passei a narrar as experiências, pessoais e de autores e diretores próximos, sobre tudo que pode cercar um texto teatral do momento em que ele sai da impressora até a noite de estreia – se é que vai haver alguma, pois fui realista o bastante para dizer que em muitas vezes a maior trajetória que um texto consegue percorrer são os poucos centímetros que separam a bandeja da impressora da primeira gaveta da escrivaninha, onde, infelizmente, os cupins assumirão os principais papéis de vilões.
Quando realmente entramos nesta discussão prática sobre tudo aquilo que o teatro tem de suor, de mesquinho, de luta, de dificuldade, de ingratidão, mas principalmente de uma satisfação e de um prazer insubstituíveis, é que o diálogo estabeleceu. Era só isso que eles queriam saber: como deixar os livros de teoria um pouco de lado e botar a mão na massa. Aos poucos, os alunos foram se revelando: os que pretendiam ser atores passaram a falar de suas potencialidades e de seus hiatos; os dramaturgos em início de carreira se arriscaram a abordar seus textos ainda embrionários; os que queriam dirigir fizeram inúmeras perguntas sobre o relacionamento com o elenco e que tipo de respeito devia ser dedicado ao texto. E eu, de palestrante, me converti em um aluno um pouco mais velho que eles, mas tão curioso quanto.
Com esta primeira aula eu pude perceber no que esta nova geração de atores, dramaturgos e diretores que ainda não abandonaram as escolas está realmente interessada. Falamos da experiência bem sucedida de alguns grupos paulistas de quem sou íntimo, como o Teatro da Vertigem, o Tapa, os Fofos Encenam, os Satyros e o CPT de Antunes Filho. Narrei os esforços de meus colegas dramaturgos contemporâneos para colocar seus textos em pé, discorremos sobre a busca incansável por patrocínio e pautas nos teatros, sobre os riscos da experimentação e sobre uma realidade cruel que, é bom que eles estejam preparados para ela, vai abrir as portas somente para aqueles que não cansarem de bater.
A partir desta aula inaugural, as que vieram depois se tornaram muito mais participativas e prazerosas, pois eu já saía de casa ciente dos interesses reais desta nova geração de artistas. E este aprendizado, que agora serve para mim, eu gostaria de compartilhar com todas as escolas de teatro do país: por mais que gostem dos livros e dos exercícios (e eles gostam mesmo!) os alunos estão ansiosos para saber o que vem depois da última página. Por uma razão muito simples: o que vem depois da última página é a vida e o futuro de cada um deles.
- 11-01-2010A recepção de Samuel Beckett no Brasil (Moacir Chaves)
- 25-11-2009O Marco Plinio Marcos (Zé Celso)
- 16-11-2009Te beijo, Pina (Bia Lessa)
- 29-10-2009Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas realmente eu preferia que você estivesse... acompanhado(a)! (Bernardo Jablonski)
- 13-10-2009O teatro e o portal: a hora é esta (Flávio Marinho)