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Bernardo Jablonski/Divulgação

29-10-2009 ////////

Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas realmente eu preferia que você estivesse... acompanhado(a)!

Bernardo Jablonski

Uma temporada teatral rica deve conter tudo que é tipo de peça: dos clássicos ao contemporâneo, do experimentalismo “cabeça” à comédia rasgada (de costumes, farsa, comédia romântica, besteirol, etc.), dos textos novos aos nem tanto, dos musicais às adaptações de romances e/ou outras fontes literárias. Normalmente, esta variedade é o que denota a pujança e a “sanidade” da atividade teatral, como um todo. E nesse sentido, ao menos no Rio de Janeiro, estamos bem servidos: dos mais de 60 espetáculos estavam em cartaz, temos de tudo um pouco – isto apesar das crises eternas, das dificuldades de patrocínio, do estado lastimável das casas públicas (municipais, estaduais e federais), do derrame de carteiras falsas de estudante, dos riscos de sair à noite, etc etc.

Do lado positivo, ajudando a fortalecer nosso ofício, promessas dos governos (municipal, estadual, federal) de melhorarem as condições de fomento (será?), abertura de novos teatros, o apoio de jornais (página semanal inteira do Globo, dedicada apenas ao teatro) e de fiéis instituições (Banco do Brasil, Sesc, Caixa Econômica Federal, Petrobras, Correios, o Cepetin no teatro infantil), umas mais, outras menos, é claro.

Mas, além disso – e aqui está onde queríamos chegar, há algo de estranho no nosso reino: estamos sendo acometidos por uma espécie de praga que assola nossos palcos em tempos de falta de grana e de narcisismo explícito... um mal que poderíamos chamar de “monologuite aguda”: uma fantástica quantidade de peças representadas por apenas um ator (ou atriz) ou quase (peças com dois ou mais atores que sequer contracenam e onde cada um faz o seu monologuinho).

Pasmem: das pouco mais de 60 peças em cartaz, vinte (atenção: vinte, praticamente um terço!) ostentam uma figura solitária em cena! Como bem apontou Sérgio Fonta em seu programa de rádio semanal, está na hora de nos munirmos de uma dose maior de autocrítica e darmos uma freada nesta tendência: “Hoje em dia, qualquer iniciante acha que é capaz de subir num palco e alugar nossos ouvidos, olhares e paciência com o Seu momento, o Seu monólogo”, como disse o Fonta.

Evidentemente há solos extraordinários em cartaz, que só engrandecem o fazer teatral, levados à cena por Fernanda Montenegro, Guilherme Leme, Paulo Gustavo (em divertida comédia), Pedro Cardoso e Zezé Polessa, para citar alguns – a lista é grande. Mas o excesso de espetáculos desse tipo é, sem dúvida alguma, uma distorção que merece nossa atenção. Por que tantos? O que está acontecendo? São só razões econômicas? Fomos tomados por algum vírus narcísico de natureza desconhecida? Cadê os colegas de trabalho? O teatro não foi sempre a terra dos diálogos, da troca de experiências, das vivências sociais e/ou grupais? Então...?


Um terço dos espetáculos em cartaz?!
 

Enfim, espero que estas miniconsiderações neste portal (bem-vindo novo instrumento de fomento ao teatro), sirvam para algum debate, alguma produtiva troca de idéias sobre esta questão. Senão, corremos o risco de em pouco tempo a platéia querer nos imitar e termos um empate: um no palco e um na platéia.

Não dá, né?
 

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