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16-11-2009 ////////
Te beijo, Pina
Bia Lessa
A feira de São Cristovão, os salões de forró, a Estudantina; eram o Brasil com que a Pina se encantava. O interior do Ceará, o Cariri, Nova Olinda e os meninos de Alemberg. O abacaxi de palito na praia. A cozinha do Zarif, o papo solto com os amigos, conversas sem fim. O afeto. A igrejinha da Glória. Os jantares infindáveis nos restaurantes com o Kalil em qualquer lugar.
.Os CDs, todos. Queria todos. Ouvia com atenção.
. Achava graça nas pessoas e se divertia com a bizarrice de cada uma.
. Doçura firme. Uma cangaceira com açúcar.
. Uma vez numa Embaixada, se não me engano da Alemanha, passeávamos pelo jardim, quando o Embaixador veio pedir desculpas pela proximidade da favela. Educadamente e imediatamente se despediu e fomos embora. “A única coisa que eu gostava era da proximidade com a favela”. Segura nos seus atos radicais – mas sempre educada.
. No Municipal do Rio, no ensaio geral de CRAVOS, ela saiu triste, cabisbaixa com o olho cheio de água. Silêncio profundo. Eu olhava pra ela, e ela resmungava “nein, nein, nein”. No dia seguinte ensaio e uma estréia antológica.
. Depois dos jantares, da pista de dança (como ela gostava de dançar! Ela gostava de ver as pessoas dançando!), sempre sobrava no hotel ainda uma última taça de vinho que ela fazia questão de oferecer. Conversas e risadas até de manhã, e no dia seguinte também, e no outro, e no outro. Sem ansiedade nenhuma, só pelo prazer do convívio.
. Nunca reparei que era ela magra, e nem que fumava muito, para mim sua magreza sempre foi uma forma de beleza e dialogo firme com o envelhecimento. O cigarro para mim, sempre foi aquela mão gigante se movimentando no espaço. Só enxerguei essa magreza vendo suas ultimas fotos , mas que beleza elas contem...
. Os amigos eram os amigos, reconhecidos, reverenciados, cultivados. Sua amizade era extensa. Generosa. O sentido da amizade era explicitado em todos os gestos. Nunca vi a Pina dispersa diante de suas convicções.
. Pina não parecia uma visitante/ viajante, ela ficava nos lugares como se estivesse ali pela vida inteira. O olhar era curioso, atento, mas o corpo repousava.
. Encontrávamo-nos como se nos víssemos todos os dias. Fomos ficando mais velhas assim. Minha filha Maria ia crescendo... Cresceu e foi pra Wuppertal, minha outra filha nasceu – Clara (viu todos os últimos espetáculos da Pina no Brasil, pequena, sem entender muito, mais ali!). E o tempo passando... No Brasil, fora do Brasil sempre a mesma intenção de usufruir do encontro. E na despedida sempre tinham um “na próxima vez...” abraços e risadas. Talvez por isso sua morte tenha sido tão surpreendente. Uma interrupção. Com certeza irei ao Chile ver sua ultima produção. Procuro por ela, procuro uma pista. A vida vai perdendo a graça.
. A primeira vez que vi seu trabalho foi com o Antunes Filho. Café Muller, que verei de novo agora sem ela. Mas diferente de outros artistas, no trabalho de Pina encontramos a Pina. Ela é exatamente o seu trabalho. Afeto, olhar astuto, generosidade, interesse no indivíduo e na diferença de cada um. Criação. Vou para São Paulo para ver Café Muller e a Sagração da Primavera, mas vou também para encontrá-la de novo. Poder usufruir de sua presença. Levarei minhas filhas, meus sobrinhos, os amigos. Temos que vê-la e revê-la. Obrigada Kalil.
Dear Pina,
Não sei escrever. Não encontro no que escrevo, uma forma de organizar as palavras para que possam imprimir o sentimento confuso que fiquei com a notícia abrupta de sua morte. Fui acordada de manhã pela minha filha Maria. “Mãe, mãe, a Pina morreu!” AH???? Ela estava perplexa, eu fiquei perplexa e o tempo parou.
Ligamos imediatamente para Sabine em Wuppertal, e a confirmação com alguns dados de esclarecimento (“ela estava tranquila Bia, aceita, se despede dela”) me pareciam palavras sem sentido. Liguei pro Kalil em Paris e não conseguimos nos confortar. Escrevi para o Caetano. Meu desejo era pegar o avião e ir até você. Mas tua morte foi tão silenciosa, você e suas pessoas mais íntimas: seu marido, seu filho, sua cunhada e Sabine. Como eu admiro a sua precisão.
Mas eu queria ficar perto de você, queria estar a seu lado. Como eu já disse, irei ao Chile ver seu último trabalho, vai ser uma forma de tentar compreender um pouco o que se passou com você, preciso de uma pista.
Você já estava chegando no Brasil e isso tornou tudo ainda mais esquisito.
Como você sabe, nossa Rainha do Cactos morreu ano passado, nossa adorável Viola (recebemos o cachecol que você mandou. Chegou na hora e a acompanhou). Seus gestos sempre são precisos como são na sua obra.
Acompanhei de perto a morte da VIola e a elaboração (obviamente não sem dor) da aproximação da morte. Foram momentos muito fortes que guardo comigo e que vão se tornando um pouco do meu alicerce. Conversas, abraços looongos, silêncios acompanhados. Lemos muito Santo Agostinho.
Vocês duas de alguma forma, e também a Anna Mariani, constituem para mim uma espécie de trindade onde encontro chão e leveza para estabelecer uma conversa com a vida. Nessa trindade há uma quarta - minha inesquecível mãe!
A vida vai ficando um tanto sem graça. confesso, sinto falta.
Ter conhecido você, no nosso longo dialogo sem palavras, e aos poucos com o uso delas, foi uma delicia! Vou sentir uma falta enorme. Não entendo.
Esse texto escolhi para ler para a minha mãe, para Viola e agora pra você.
A CÂMARA CLARA
ROLAND BARTHES, págs. 112, 113
EDITORA NOVA FRONTEIRA
... havia um núcleo radiante, irredutível: minha amiga.
Acham que sofro mais porque vivi parte da minha vida com ela; mas minha dor provém de quem ela era; e é porque ela era quem ela era que vivi com ela. À Amiga como bem, ela acrescentara essa graça de ser uma alma particular. Eu podia dizer, como o Narrador proustiano quando da morte de sua avó: “Eu não me atinha apenas em sofrer, mas em respeitar a originalidade de meu sofrimento”; pois essa originalidade era o reflexo daquilo que havia nela de absolutamente irredutível, e por isso mesmo perdido para sempre de um único golpe. Dizem que o luto, por seu trabalho progressivo, apaga lentamente a dor; eu não podia, não posso acreditar nisso; pois, para mim, o tempo elimina a emoção da perda (não choro), isso é tudo. Quanto ao resto, tudo permaneceu imóvel. Pois o que perdi não é uma figura (a Pina), mas um ser; e não um ser, mas uma qualidade (uma alma): não a indispensável, mas a insubstituível. Eu podia viver sem a PINA, sem a VIOLA, sem minha MÃE (todos vivemos, mais cedo ou tarde); mas a vida que me restava seria infalivelmente e até o fim inqualificável (sem qualidade).
Te beijo
Bia
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