Entrevistas / Perfis
23-10-2009 ////////
Pedro Cardoso
Ator fala de "Os Ignorantes" e critica diretores que querem ser o show: "Odeio diretor. O show é do ator"
Instigado pela violência urbana no Brasil e no mundo Pedro Cardoso escreveu e estreou, em 1998, a peça “Os Ignorantes”. O espetáculo voltou este ano aos palcos do Teatro Fashion Mall, no Rio de Janeiro, onde fica em cartaz até novembro (serviço aqui). Nesta entrevista, Pedro Cardoso fala sobre a peça e sobre sua experiência no teatro, no cinema e na televisão, onde interpreta o personagem Agostinho, em “A Grande Família”. Além da minissérie, o ator planeja outra peça para o próximo ano, “O fantasma”, que vai falar de Chico Mendes e da questão ecológica.
De onde veio a inspiração para o texto da peça “Os Ignorantes”?
Acho que sou um homem pequeno. Quando eu era jovem, no colégio, sempre fui uma vítima muito provável da violência física. Eu era fraco. Então sempre fiquei muito assustado com a possibilidade da violência. Mas também porque tive filhas mulheres, então o meu instinto de proteção sempre foi muito aguçado. Sempre fui muito assustado com a violência física e o assunto da peça é a violência. Me perguntei quais seriam as razões mais profundas de tanta violência e a inspiração veio da observação de que a violência é uma constante na vida em sociedade. Instigado pela absurda violência brasileira e mundial, escrevi a peça.
Como foi a montagem do roteiro de “Os Ignorantes” e a escolha dos artistas e músicos para participarem do projeto com você?
Pela admiração. O Romero Cavalcanti é um cara que admiro há muitos anos e todos esses músicos que trabalham comigo, só no Brasil eu posso pagar, porque são músicos de primeiríssima linha. Eu chamo para trabalhar comigo quem eu gosto.
E qual é a sua relação com a música?
Me espanta que um país tão musical como o Brasil não tenha desenvolvido um teatro com mais música. Então me interesso muito em fazer um teatro musical no Brasil. Acho que vai ajudar o teatro, ao Brasil e à música. Viajei já adulto para Londres e assisti a vários musicais. Fiquei espantado com como eles trabalham bem a música no teatro e fiquei determinado a fazer um teatro no Brasil com maior presença da música. Então eu gosto e coloquei a música na peça. Para mim, a qualidade do equipamento é uma questão tão importante quanto qualquer outra do espetáculo. Realmente trato a música como um protagonista.
Para você qual é a receita de sucesso da peça? Ela está em cartaz desde 98.
Acho que o teatro é o lugar da alegria. O teatro, não o tema do qual o teatro está tratando. É possível tratar de um tema cheio de dor no teatro de forma alegre, porque o teatro é alegre. É alegre o fato de estarmos todos reunidos para pensarmos juntos os nossos problemas da vida em comum. Isso é um fato em si alegre, em si cheio de vida e em si cheio de esperança. Nesse lugar feliz, é possível tratar de todas as dores, sem que nós tenhamos que nos entristecer com as dores das quais estamos falando. Acho que essa é a vocação eterna do teatro, ser esse lugar alegre onde se fala de tudo. Por isso que a peça, embora trate de um tema doloroso, por estar dentro do teatro ela está, digamos assim, protegida pela própria alegria que o teatro tem.
Qual é o tema central de “Os Ignorantes”?
É a ignorância que as pessoas têm sobre elas mesmas e a respeito dos movimentos psíquicos que todos temos, mas tendemos a negá-los. É aquilo que a peça diz: você tente a descrever a realidade de maneira que ele seja perfeita para você. Você muda o real para não ter que mudar a si mesmo.
Qual é a principal mudança desta versão da peça em relação às versões anteriores?
Não é grande. Mudei a música, coloquei um cenário mais leve e coloquei um figurino. É uma coisa que o João Gilberto ensinou: a gente fica eternamente aprimorando, tentando cantar uma canção de uma maneira perfeita, mas não há uma mudança substancial, há um aprimoramento, uma ambição eterna de melhora.
Qual a importância dessa peça na sua carreira?
Não sei se tem uma importância maior que os outros trabalhos. É muito prazeroso fazer alguma coisa até o fim. É muito dadivoso numa sociedade que tira a palavra da boca de todo o mundo, ter o privilégio de ter a palavra na minha boca. É também muito oneroso, porque eu percebo a responsabilidade que isso me traz. A peça me traz grande alegria. Ela é exatamente o que penso. E ter a oportunidade de dizer o que penso é muito agradável. Todo o mundo quer comunicar o que pensa, mesmo em uma roda de amigos. E tenho a oportunidade de falar com muita ressonância. E isso me traz grande, enorme, incomensurável e indescritível alegria.
Você se considera um ator de teatro, de cinema ou de TV?
Me considero um ator de teatro que trabalha em televisão com enorme prazer pela circunstância da história da televisão no Brasil. A televisão no Brasil tem uma importância enorme e ela é assistida por uma multidão. Cada vez que faço “A Grande Família”, 60 milhões de pessoas me assistem. Isso é um prazer sem fim e uma responsabilidade muito grande também.
Porque você é contra a nudez no Teatro, na TV e no Cinema?
É uma questão estética, ética e por fim moral. Mas ela é primeiro uma questão de estética e de eficiência narrativa. Acredito que a nudez provoca uma crise na narrativa. Você conta uma história em que uma atriz está criando na pessoa dela a ilusão de um personagem. Quando esta atriz fica pelada, eu paro de ver o personagem e vejo a pessoa. É o peito da Júlia Roberts que estou vendo se ela ficar pelada. Eu não vejo o seio da personagem. A atriz fica reduzida à sua fisicalidade. Isso cria um degrau na narrativa que distrai o público da história. Joga o público em um enfrentamento com os seus anseios sexuais. Então ao fazer a peça e o filme “Todo Mundo tem Problemas Sexuais” eu falei com o Domingos Oliveira: não vamos fazer cenas de nudez, porque vai atrapalhar a comicidade, vai distrair o público da narrativa. Acho que eu estava certo. Isso é o aspecto estético. Ao refletir sobre isso, percebi que havia uma questão ética embutida nessa. É que eu não queria que o meu filme fosse tomado como esses filmes brasileiros de pornochanchada, porque o nome induz a isso. Me ocorreu fazer um manifesto e dizer que as atrizes brasileiras estão sendo subjugadas por uma pornografia disfarçada de entretenimento. Escrevi longamente sobre isso em um blog que está publicado na internet. Escrevi 80 páginas e realmente me dediquei a isso. Eu não acho que esse seja o único assunto fundamental da nossa vida artística, mas ele é um assunto importante. A pornografia estar disfarçada de entretenimento é um dado importante do nosso tempo e da nossa sociedade.
Você enxerga uma tendência de adaptação das peças para o cinema no Brasil?
O cinema americano foi feito porque antes dele a sociedade americana havia produzido uma enorme literatura. Cerca de 90% dos filmes americanos são baseados na literatura americana. A literatura americana inundou o cinema americano com um manancial de excelentes idéias. Então o Brasil começar a adaptar a sua literatura para o cinema é um caminho maravilhoso para o Brasil, seja ela baseada em teatro ou no romance.
Você pensa em adaptar “Os Ignorantes” para o cinema?
Não penso em adaptar a peça para o cinema porque acho que ela tem uma essência teatral intransponível para outra linguagem. Quando escrevo para teatro, sempre me pergunto qual é a ideia essencialmente teatral e que só no teatro você a poderá ver. Acho que o teatro deve oferecer a iguaria que só ele é capaz de traduzir. Quando Spielberg faz um filme, ele faz um tipo de ideia que só é boa enquanto filme. Se você adaptar um filme do Spielberg para o teatro ou para a literatura, provavelmente não vai ser uma boa peça ou livro. “Os Ignorantes” é teatro puro. Jamais o levaria para o cinema.
Porque você rejeita o rótulo de Teatro Besteirol (veja Memória aqui)para o movimento teatral que aconteceu nos anos 80?
Eu penso que o teatro é o lugar do ator. É a casa do ator, porque o ator é o dono do teatro. Não há teatro sem ator, mas há teatro sem autor e há, certamente, sem diretor. Quando o teatro não tem autor, o ator conta uma lenda que é do povo. O autor é a comunidade, mas sem ator não há teatro. Aquele movimento, que teve uma expressão muito forte nos anos 80, colocava o ator de novo no centro do teatro e tirava poder do diretor e do autor. Isso é uma questão revolucionária. Ao transformar-se aquilo em um fenômeno menor estava-se, ainda que inconscientemente, evitando que uma boa revolução acontecesse no teatro brasileiro, que era dar novamente poder ao ator, que está subjugado pelos diretores e pelos autores. O ator não é mais o dono da cena. O dono da cena é o diretor ou o autor. Por isso é que sou contra o rótulo, porque ele minoriza uma questão que tinha uma contribuição muito grande a dar, e deu. Deu uma enorme consequência para o teatro brasileiro. Acho que ninguém ainda teoricamente escreveu ou pensou seriamente sobre a importância daquele fenômeno. Ele é tido como uma coisa menor e não foi. Eu não rejeito só o nome, mas tudo o que foi dito pela crítica naquele período sobre esta manifestação. O nome é apenas a locomotiva de depreciação que aquele teatro sofreu. Ninguém falou nada de bom dele. Não faço hoje o que eu não fazia antes. O meu espetáculo de hoje é resultado do que fiz antes, não mudei de rumo e nem de ideia. E eu não quero diretor. Odeio diretor. O diretor não serve para nada. Diretor é o capataz do capitalista. Essa é a origem histórica do diretor. Agora, pode haver um diretor artista, que dará grande valor ao ator, como por exemplo, o Amir Haddad. Os outros diretores acham que são eles o show, acho que eles deviam ser atores. O show é do ator.
Quais são os seus próximos projetos?
Vou montar ano que vem uma peça chamada “O fantasma”, que escrevi sobre Chico Mendes e fala sobre a questão ecológica. E espero continuar com “A Grande Família” também, que é um projeto a cada semana.
Maria Maya
O Homem Inesperado
Marisa Orth
Sopros de Vida
Fernando Eiras e Emilio de Mello
Ary Coslov