Entrevistas / Perfis
02-02-2010 ////////
Aurélio de Simoni
Iluminação de “Produto” é assinada por um dos maiores nomes do ofício no Brasil
Com mais de trinta anos de carreira, Aurélio de Simoni é considerado um dos maiores nomes da iluminação do país. Discípulo de Luiz Paulo Neném, ele conta que começou a atuar na profissão aos 29 anos de idade, depois de exercer diversas atividades. Aurélio influenciou uma geração de iluminadores brasileiros. Um de seus assistentes foi Maneco Quinderé, outro grande nome da iluminação no país. Ele lamenta a falta de formação para os iluminadores no país e dá a dica para quem quer seguir a profissão: “Estude, pesquise, aprofunde seu conhecimento de todas as formas possíveis, inclusive pesquisando o trabalho de criação dos outros”. Leia a entrevista completa com este que é um dos profissionais mais requisitados em iluminação e que assina a luz do espetáculo "Produto", em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim (leia mais sobre a peça aqui).
Você começou a carreira com 29 anos, relativamente tarde... O que fazia antes disso e como aconteceu esta transição?
Fui de tudo um pouco na vida. Quando tinha 29 anos trabalhava na RFFSA (Rede Ferroviária Federal). Minha primeira mulher resolveu fazer teatro. Com o tempo, no intuito de ajudá-la, fui tomando gosto pela coisa e acabei como contra-regra de um espetáculo infantil que ela fazia, isto em 1976, no Cacilda Becker. Logo depois - assim é o teatro - passei a ser contarregra, operador de luz e de som deste espetáculo. No ano seguinte, o mesmo espetáculo foi reencenado no SESC da Tijuca e lá fui eu, continuando a trabalhar na RFFSA. No final de 1977 fui convidado pelo administrador daquele espaço a trabalhar ali. Em janeiro de 1978 comecei a ser operador de luz. Daí para o que sou hoje e abandonar um emprego estável foi só questão de tempo.
Como foi a sua formação de iluminador? Como aprendeu o ofício?
Com a efetivação da função de operador, fui aprendendo de maneira empírica e assimilando conhecimento junto aos iluminadores e outros técnicos que iam levar seus trabalhos ao teatro onde eu era o responsável. Com seis meses de trabalho conheci Jorginho de Carvalho que, graças ao seu espírito de permitir que seus ajudantes participassem de seus raciocínios na criação da luz dos seus espetáculos, fui entendendo o "por quê" da luz. Luiz Paulo Neném, também auxiliar de Jorginho, proporcionou-me adentrar no mundo tecnológico da luz (seu raciocínio lógico é formidável). Foi um período altamente fértil na minha formação. Depois de um tempo comecei a criar "minhas luzes".
Você estabeleceu uma parceria longa com o Moacir Chaves. Como começou esta parceria e como você avalia o resultado dela nas peças que vocês fizeram juntos?
Moacir Chaves é, em minha opinião, um dos melhores diretores com quem já trabalhei. Entende de tudo um pouco. Sua troca com a equipe de criação é altamente profícua. Seu diálogo com seus ajudantes transcorre de forma serena e simples. Estamos juntos há mais de dezessete anos. Nosso primeiro trabalho juntos foi “Esperando Godot”, com a participação de Denise Fraga e do saudoso Rogério Cardoso, no Teatro Ipanema. A luz gerada nos espetáculos que juntos criamos é, sem dúvida, um resultado de uma troca de sensibilidades, criatividades e técnicas, altamente mútua. Que venham mais dezessete!
Como você avalia a iluminação do teatro brasileiro contemporâneo? Temos alguma influência específica? Em que ainda temos que melhorar?
Com o advento do então vídeotape, a internet hoje, enfim a globalização ligeira das informações técnicas, hoje temos, no Brasil, a possibilidade de acessarmos as informações, o que nos possibilita acelerar o conhecimento do que corre pelo mundo da Iluminação e, com a alavanca da robótica, isto tem se tornado ligeiro. Podemos dizer que o estudo profundo da iluminação cênica ou arquitetural está ao alcance de todos nós apaixonados por um facho luminoso. Com isto, nosso nível de criação demonstra um aperfeiçoamento bastante razoável. Pena, muita pena mesmo, não termos aqui no nosso país um currículo escolar adequado para uma formação, em nível superior, de profissionais que militariam na área de Iluminação. Se puder, ainda der tempo, quando for criada uma Escola de Iluminação lá estarei com meus cadernos debaixo dos braços.
Maneco Quinderé foi seu assistente. Como ele chegou até você? E como você avalia a sua influência no trabalho dele?
Maneco foi "nosso" assistente. Na época assinava luz junto com o iluminador Luiz Paulo Neném. Tínhamos nele um ajudante de primeiro time que mais tarde revelar-se-ia num dos melhores iluminadores deste país. Não acredito que ninguém ensina a ninguém "fazer luz". Quando muito nosso trabalho pode servir como parâmetro de raciocínio para aqueles que enveredam por nosso caminho. Eu mesmo costumo dizer que não aprendi a fazer luz com Jorginho e sim "a fazer teatro", uma coisa maior.
Como você avalia a evolução do seu trabalho ao longo dos anos?
Quer criar mais? Estude, pesquise, aprofunde seu conhecimento de todas as formas possíveis, inclusive pesquisando o trabalho de criação dos outros. Assim você terá melhores condições de se posicionar no mercado de trabalho. Quanto melhor for a sua especialização técnica, maior será a sua viagem pela criação. Assim procuro permanecer na ativa.
Que trabalhos você destaca como os mais importantes da sua carreira?
Melhores trabalhos? Aqueles de me proporcionaram o reconhecimento dos companheiros com os quais dividi minha história no Teatro. Acredito ser perigoso e passível de erro analítico citar algum. Deixo para aqueles que os viram assim decidir.
O que é preciso para se tornar um bom iluminador?
Estudo, pesquisa, dedicação, perseverança nos seus objetivos e, principalmente, não crer que "já sabe tudo", pois nesta área as novidades técnicas nos chegam como avalanche.
A melhor escola é a prática? Como formar novos talentos para a iluminação do teatro brasileiro?
"Quer aprender luz? Cola com quem faz!". É assim até hoje a formação do profissional brasileiro. Por mais autodidata que sejamos, a troca de informações, teóricas ou práticas, entre aqueles que trabalham, aprimora o resultado de um bom trabalho.
Como surgiu o convite para “Produto”?
Conheço Ary há muito tempo. No ano de 2008 ajudei-o a criar um espetáculo primoroso, “Traição”, no Teatro Solar de Botafogo, um Pinter (Harold). Rendeu-lhe prêmios merecidos. O convite para voltarmos a trabalhar juntos veio agora com "Produto".
Como é a iluminação de “Produto”?
A luz de “Produto” resume-se a um conceito radical de simplicidade. Os atores e o texto não terão muito onde se apoiar no restante da equipe técnica. Uma cenografia objetivamente econômica, o figurino "comum (um para cada um dos atores), poucas inserções musicais e uma luz onde seu "maior vôo" limita-se a apoiar a dinâmica cenográfica.
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