Entrevistas / Perfis

Fernando Eiras (ao fundo) e Emílio de Mello/Foto: Dalton Valério

03-02-2010 ////////

Fernando Eiras e Emilio de Mello

Atores falam da temporada paulista de "In on It"

Por favor, não consumam balinhas: silêncio é um coadjuvante importante no teatro. Seja na narrativa – para compor uma cena - ou na educação de quem está na plateia. É também elemento fundamental para que os atores Fernando Eiras e Emílio de Mello se desdobrem com agilidade impressionante entre dez personagens na peça “In on It”, sucesso carioca que chega a São Paulo com a mesma badalação. O texto do canadense Daniel MacIvor é uma metalinguagem teatral sensível e repleta de nuances que ganhou direção primorosa de Enrique Diaz.

Atender a um telefonema, ver uma mensagem ou tentar abrir aquela bala pequenininha tão devagar – como se a lentidão do movimento abafasse o som metálico da embalagem – não conota apenas em absoluta falta de respeito à ocasião, mas o não estar ali 100%, acredita Mello. E não estar inteiramente focado em “In on It” é perder o melhor da festa. A montagem traz jogo de cenas ora complexo, ora revelador – numa interpretação inspirada de Fernando e Emílio. Os atores comentam a nova temporada.

A temporada de São Paulo começou com a mesma badalação do Rio de Janeiro?
Emílio de Mello: Esta peça já era um sucesso antes de nós. O mérito é do autor e diretor canadense Daniel MacIvor, que escreveu este texto espetacular. Mas o fundamental é que se trata de um trabalho que passa algo de bom às pessoas. Não importa se ela entendeu só um pedaço da narrativa, o fato é que gera uma sensação boa, de felicidade.
Fernando Eiras: As pessoas vem cumprimentar emocionadas. É realmente uma mágica o que acontece no palco. Drica Moraes uma vez nos disse uma frase linda: que “In on It” era um milagre. Milagre é o que dizemos quando não encontramos adjetivos que correspondam à emoção ou sentimento em relação a algo. É gratificante ouvir isso.

E qual é a mágica de “In on It”?
Emílio: Esta peça é feita por três grandes amigos, que torcem muito um pelo outro. Eu e Fernando temos uma química forte. E essa afinidade transparece no palco.
Fernando: Eu sou um privilegiado porque tenho dois diretores neste trabalho. Enrique Diaz, nosso diretor, e Emílio que apesar de estar aqui como ator também dirige peças. Eles me protegem muito, é muito bonito. Temos diferenças, claro, divergimos em assuntos, mas existe uma cumplicidade em cena que impressiona. Vim de um musical, “Noviça” Rebelde”, que me deixou completamente esgotado. Tive de ‘zerar os registros’ para embarcar nesta história. “In on It” é uma obra muito profunda, cheia de nuances, camadas. É o tipo de teatro que nos contempla profissionalmente e pessoalmente.

Dois atores, duas cadeiras e um casaco. A ausência de elementos no palco ajuda ou atrapalha quando, por instantes, se desconcentram em cena?
Emílio: “In on It” exige uma concentração muito grande, pois é muito ágil, com muitas trocas. O palco vazio nos ajuda a nos focar ainda mais. Já o barulho de uma bala se abrindo na plateia é algo que interfere no trabalho. Há um momento em que a gente conversa com o espectador, mas se penso muito em como abordo uma determinada pessoa corro o risco de perder o timing da peça. Tenho de estar 100% entregue, concentrado.
Fernando: Na estreia paulista, uma senhora atendeu a uma ligação na primeira fila. Parei a cena para aguardar o fim da chamada. É uma troca de personagens e cenas muito ágil, temos quase que uma coreografia no palco, é preciso estar centrado no trabalho. E é claro, que se a plateia não está conosco, atrapalha.
Emilio: O que mais incomoda mesmo não é alguém comer algo ou coisa do tipo, é perceber que aquele individuo não está totalmente ali. Ele vem ao teatro e fica pensando no jantar logo depois e em outros assuntos, não está entregue ao que veio assistir, ao momento.

Gera tensão estrear em São Paulo?
Emílio: Com certeza. São Paulo é uma praça importante e, na estreia, estava a nata teatral paulista aqui. É um peso, claro. Mas gosto de observar o público, saber se a casa está cheia ou não, a feição das pessoas. Mas medo? Não, isso eu não tenho mais, desde que meu segundo filho nasceu. Estreei a peça no Rio um dia após o parto. Cheguei no teatro ainda absorvido naquela emoção indescritível que é ver um filho nascer. Depois disso, você encara qualquer coisa.
Fernando: Saber que algum nome importante do teatro está na plateia pode sim atrapalhar minha concentração. Prefiro não saber. Emílio me protege neste sentido, não conta nada (risos)!”

O saudoso Paulo Autran dizia que o monólogo “O Quadrante” era seu táxi. Que levava para todo canto. Conseguem vislumbrar uma trajetória tão duradoura para “In on It”?
Fernando: Penso que ainda falta muito para a gente chegar ao patamar de Paulo Autran, um mestre do nosso teatro. Mas, claro, espero que ainda tenhamos muito tempo de peça. “In on It” tem muito do teatro que acredito, que faz parte da minha essência. E une três amigos que possuem profundo sentimento um pelo outro. O Enrique vem nos assistir e até hoje senta na primeira fila e se esbalda com as cenas. Começa a rir antes mesmo da ação acontecer, antecedendo a plateia. Torce, se diverte. É engraçado, porque no musical (Noviça), em três meses de temporada eu já havia me esgotado. Estava exausto. “In on It me alimenta.
Emílio: Todos queriam ver Paulo Autran em cena, onde quer que fosse, é diferente. Mas sabemos que a boa campanha de nossa peça até agora não é garantia de nada. Nosso melhor exemplo foi a temporada de Belo Horizonte. Tínhamos encerrado as apresentações no Rio, onde a mídia, o público e os amigos da classe nos abraçaram. Saímos de um teatro pequeno, cerca de 80 lugares, para um de 400. Na estreia, 50 pessoas. Foi um choque, mas fundamental para entendermos que temos de trabalhar sempre uma montagem com antecedência em cada praça. O Enrique fez palestra no dia seguinte e apenas três pessoas compareceram. Mas aí veio a recompensa: depois de 50 pessoas no primeiro dia, no segundo já havia umas 200 e no terceiro, casa cheia, com gente sentada na escada. Está aí a força da peça, é o boca a boca. É aquele sentimento bom que a pessoa carrega daqui e passa pra frente, retorna para ver de novo. E isso é muito gratificante.

Saiba mais sobre "In on It"
Confira entrevista com o autor canadense Daniel Maclvor, feita por Enrique Diaz


 

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