Entrevistas / Perfis
17-05-2010 ////////
Marcelo Adnet
Sucesso entre os jovens, o carioca conta como a Internet ajudou a alavancar sua carreira
Quem escuta Marcelo Adnet falar sobre teatro de improvisação, humor e a importância da internet para alavancar seu trabalho com tanta propriedade, não imagina que ele tem apenas sete anos de carreira. Com o sucesso do espetáculo “Zenas Emprovisadas” e do programa “15 minutos”, da MTV, o carioca virou febre entre os jovens que copiam seus gestos, imitam seu jeito de falar, assistem na web todos os programas e repercutem tudo nas redes de relacionamento.
A ‘Adnetmania’ se intensificou depois que o ator chegou à MTV com a proposta de um programa curto, que pudesse ser baixado pela Internet facilmente e tivesse um ar bem despojado e informal, com cara de quarto de adolescente. Apenas 15 minutos diários foram suficientes para espalhar os comentários hilários de Adnet mundo afora, sempre ovacionado por uma legião de fãs. Um dos grandes trunfos do programa é a participação do público, que comanda a atração junto com o apresentador.
Como se não bastasse dar conta de um programa de TV e de um espetáculo, Marcelo ainda está no elenco do stand-up comedy “Comédia ao Vivo” e apresenta o “Comédia MTV”, nos quais divide a cena com sua esposa Dani Calabresa. Os dois casaram-se no sábado passado, dia 15, em São Paulo. Nesta entrevista, Marcelo Adnet conta como se tornou um comediante, comenta sua relação com os jovens e revela que foi sondado para trocar a MTV pela TV aberta. Quem quiser vê-lo de perto, Adnet está em cartaz com “Zenas Emprovisadas” no Vivo Rio, dias 18 e 24 de maio e 1 de junho. Veja cenas do espetáculo.
Como surgiu o ZE? Como foi o encontro de vocês quatro?
Fernando Caruso, Gregório Duvivier e Rafael Queiroga se conheceram no Tablado fazendo aula de teatro. Eu conheci o Caruso na faculdade de jornalismo e ele me convidou para fazer um ensaio. Fui o último a chegar, sou o quarto elemento. Fiz um ensaio em 2003 e logo de cara deu muito certo.
Como nasceu sua relação com o humor?
Começou de uma forma não profissional, porque sempre fiz graça no meu dia a dia. Sempre gostei de coisas estranhas, ouvia o horário eleitoral todo dia no rádio. Gostava de imitar parentes, amigos, políticos. Gosto muito de rir, mas nunca pensei em trabalhar com o humor de uma forma profissional. É uma coisa natural da minha personalidade. Fico muito feliz em poder trabalhar com o que gosto.
Existe algum exercício para aprimorar a técnica da improvisação?
Assim como qualquer outro jogo, é preciso treinar. É como se fosse um músculo que você precisa exercitar. Para ser bom nisso, tem que ter rapidez no raciocínio e é fundamental não ter medo de errar. A pessoa precisa lidar bem com o erro, ver de uma forma natural. Quando você se incomoda com o erro, a plateia percebe e o raciocínio trava. O ator tem que se entregar para trabalhar com improvisação, tem que ser cara de pau.
Já te deu branco em alguma apresentação?
Já. No ZE, tenho que criar quatro músicas com temas sugeridos pela plateia no improviso. Às vezes não consigo rimar palavras ou não sei o que vou falar. Aí tem que agir de uma maneira bem cara de pau, se jogar no chão, para que a plateia não perceba que te deu branco.
Como se dá a interação da plateia com os atores?
O ZE é um espetáculo de improvisação, em que a plateia sugere os temas e os títulos de cada história. É muito excitante para eles ver que o tema que escolheram está em cena. Nos stand-up comedies, esta interação se dá de uma forma diferente porque este tipo de espetáculo tem um texto decorado e apresenta temas do cotidiano no qual a maioria das pessoas se identifica ou reconhece alguém.
A primeira esquete de Zenas Emprovisadas é ensaiada. Por que?
Como a gente improvisa todo o resto, queremos garantir que pelo menos no início do espetáculo vai dar tudo certo. É o momento em que a gente apresenta o convidado da noite para a plateia com um papel de destaque na cena. Esse esquete funciona para aquecer a plateia para a comédia, para a gente sentir quem está ali assistindo naquele dia.
Você acha que o sucesso para vocês veio rápido? Como vocês lidaram com isso?
Foi rápido. A gente sempre lotou as casas por onde passou. Começamos nos apresentando no Café Cultural de Botafogo, com 50 lugares, e hoje nos apresentamos em lugares para duas mil pessoas. Lidamos com o sucesso não nos acomodando com ele. Sabemos que o público gosta do nosso trabalho, mas nunca relaxamos por causa disso. Ainda hoje nos encontramos para treinar com os convidados da semana, não importa a quantidade de trabalho paralelo que tenhamos. Nós nos dedicamos muito a este projeto. É importante manter a humildade.
Como você consegue tempo para se dedicar a tantos trabalhos?
Nem eu sei como! O brasileiro é um povo muito trabalhador, muitos se desdobram em mais de um emprego, se sacrificam. Sou mais um deles: durmo pouco, me alimento mal. É difícil equilibrar tudo, tem que ter a cabeça muito no lugar para não se estressar, não cair em depressão. Quando estamos sem trabalho, a gente reclama que está à toa e quando estamos trabalhando, queremos férias. É importante saber dosar.
Vocês já levaram o espetáculo para outros estados? Como foi a receptividade do público?
Fomos para São Paulo e Pernambuco. Foi muito legal, mas precisamos mudar o foco da piada. O Brasil é enorme e cheio de regionalismos. Nós temos a preocupação de nos fazer entender em todos os estados. Este ano vamos para Belo Horizonte, Vitória e Belém.
Você acha que o humor do Rio é diferente do de outros estados?
Sim, o carioca é como o nordestino, muito comunicativo, caloroso. O paulista é mais sério, mas ao mesmo tempo ri com mais facilidade. O carioca é mais exigente com a piada porque o nosso cotidiano é formado por pessoas mais descontraídas. Rimos bastante no nosso dia a dia. Em São Paulo, o humor é mais cabeça.
Por que o teatro de improvisação e stand-up comedy agrada tanto aos jovens?
O jovem se tornou um mercado consumidor. Quando eu tinha 14, 15 anos, tinha que correr atrás da revista de mulher pelada do primo mais velho. Hoje o adolescente pode ver o que quiser na Internet. O sucesso das redes sociais com o jovem acontece porque ele tem mais tempo livre para se dedicar a isso. Os stand-up comedies são formados de esquetes e a improvisação de pequenas histórias, então fica fácil baixar na Internet e assistir a hora que quiser. Acho que o humor politicamente incorreto também agrada bastante aos jovens de hoje. A era digital ajudou muito a difundir o humor, é muito democrático. Hoje, qualquer um pode postar seu vídeo na Internet e ter seu trabalho conhecido no mundo todo.
Como foi descoberto pela MTV?
Fiz uma participação no programa “Rockgol”, da MTV, e os diretores gostaram tanto que me chamaram para um teste. Um tempo depois me ligaram e chamaram para fazer o “15 minutos”. Eu queria que o programa tivesse uma cara de casa, uma coisa mais informal, despojada, esse é o perfil da emissora. Esse formato curtinho com a participação do público funcionou muito bem. Hoje a Internet é fundamental para o “15 minutos”. A resposta do público é muito maior e chega de uma forma muito rápida.
Você pretende trocar a MTV por um canal aberto?
Já fui sondado, mas sou um cara calmo, não tenho desespero para ir para a TV Globo e aparecer mais. Fiquei muito feliz e seduzido com o convite, mas meu objetivo é fazer um bom trabalho onde quer que eu esteja. Quero ter um bom espaço para fazer humor, não tenho interesse em aparecer mais.
Recordar é Viver
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