Memórias
05-02-2010 ////////
Asdrúbal Trouxe o Trombone
Hamilton Vaz Pereira lembra do grupo que revolucionou o teatro
Na década de 70, Sérgio Britto ministrou um curso de teatro no Rio de Janeiro que fez história no teatro nacional. Foi neste curso, em 1972, que Hamilton Vaz Pereira conheceu Regina Casé, Evandro Mesquita, além de outros nomes que iriam formar, dois anos depois, o grupo “Asdrúbal Trouxe o Trombone”. A trupe encantou o Brasil durante suas viagens e espetáculos. O impacto dos asdrúbals foi tamanho que existe um nome específico para este sentimento cultivado nos jovens entre 15 e 30 anos de idade da década de 1970. É o chamado “efeito-asdrúbal”, um verdadeiro sacode no jeito de fazer e pensar o teatro no Brasil, e também uma forma alternativa de encarar a vida. E isso tudo em plena ditadura militar.
Foram cinco espetáculos durante os dez anos em que o grupo esteve na ativa. E até hoje os asdrúbals estão por aí e lembram com carinho da época em que andavam pelo Brasil apresentando seus espetáculos e encantando as plateias. Também fizeram parte da trupe nomes como Perfeito Fortuna, Bia Lessa, Daniel Dantas, Louise Cardoso, Patricya Travassos, entre outros. Leia aqui entrevista com Hamilton Vaz sobre o grupo e o que ele representou para a cultura e o teatro brasileiro.
Como o Sérgio Britto influenciou os Asdrúbals?
Existe um termo de teatro que eu não sei quando surgiu, que é “um homem de teatro”. Li este termo quando comecei a estudar teatro e hoje quando alguém fala em um homem de teatro, eu penso logo no Sérgio Britto. Ele é a primeira pessoa em quem penso quando me lembro deste termo, o que é um elogio. Em 1972 ele deu um curso de teatro onde conheci a Regina Casé, o Evandro Mesquita e outras pessoas que vieram a fazer parte do Asdrúbal. Além de mentor, ele é um mestre. No meu início profissional ele foi uma pessoa fundamental, principalmente por causa deste curso que ele deu, de um ano, onde conheci as pessoas que depois vieram a fazer parte do Asdrúbal.
O Luiz Fernando Guimarães fala no depoimento dele ao livro “Asdrúbal Trouxe o Trombone”, da Heloísa Buarque de Holanda, que o Asdrúbal não era um grupo, mas uma proposta de vida. Você concorda?
Naquele momento, éramos jovens de vinte e poucos anos e estávamos começando a deixar de ser estudantes para encontrar um ofício. Para cada um de nós o teatro surgiu como uma possibilidade. Acompanhando o pensamento do Luiz Fernando Guimarães, no teatro Asdrúbal cada um tinha a sua maneira de produzir. E esta proposta de vida que o Luiz Fernando fala significa pessoas iniciando o ofício do teatro de uma maneira especial e peculiar de agir e pensar sobre o teatro, que se tornou individual e coletiva por força do trabalho, e é justamente o teatro que o Asdrúbal fazia.
E como você define o efeito-Asdrúbal?
O efeito mais imediato é nos estarmos falando sobre isso agora, sobre um grupo que começou em 1974 e foi até 1984. As pessoas até hoje ainda tem interesse no Asdrúbal. O tempo passa, mas vejo que ainda recebo muitos pedidos de entrevistas do Brasil todo. Vejo que hoje existe algo carinhoso em relação ao Asdrúbal. Isso me deixa orgulhoso.
A Heloísa afirma no livro que o Asdrúbal supriu uma demanda da sociedade. E que demanda seria essa? Porque o Asdrúbal supriu esta demanda?
O Asdrúbal, durante sua trajetória, produziu cinco espetáculos, e embora também tivesse o público adulto, a partir de 30 anos, a maioria dos espectadores do Asdrúbal tinham entre 15 a 30 anos de idade. Então ao afirmar que suprimos esta demanda, talvez ela esteja se referindo a estes jovens e garotos que começaram a frequentar o teatro para assistir ao Asdrúbal. Estes jovens estavam interessados não apenas nos espetáculos, mas também na vida que encontraram no Asdrúbal, que tinha algo que fez com que eles frequentassem o teatro. Não me refiro apenas ao público carioca, mas do Brasil todo. Uma das principais características do grupo eram as viagens. Rodamos o Brasil todo viajando e apresentando os espetáculos e onde chegávamos encontrávamos amigos, público, energia, imprensa e mídia. Naquele momento, aquelas pessoas viram no Asdrúbal uma demonstração de alegria de viver que deixou todos encantados.
Qual era a postura de vocês em relação à ditadura?
Quando o Asdrúbal começou, a ditadura era forte, era 1974, um ano terrível para o Brasil. No teatro, aconteceram as prisões do Boal, do José Celso Martinez, além de exílios, prisões e mortes no Brasil todo. No nosso primeiro espetáculo, o clima era bastante tenso. Até 1978, era natural que fosse complicado para os artistas. Sofremos dificuldades, mas não foi tão complicado para nós quanto foi para outras pessoas exiladas, assassinadas. Éramos discretos por respeito às vítimas e suas famílias. Passamos pela censura prévia, o que hoje é impensável, mas na época era normal. A polícia assistia à peça antes para ver se poderíamos apresentar ou não para a plateia. Diversas vezes nossos espetáculos foram interrompidos. Pelo interior, os prefeitos dificultavam o nosso acesso porque achavam que a crítica era para eles. Mas nós não supervalorizávamos isso. Trabalhávamos sem reclamar.
Como você avalia a trajetória dos integrantes do grupo pós-Asdrúbal?
O Asdrúbal desperta atenção porque os integrantes têm posição notória. Nós estamos agora falando sobre o Asdrúbal porque as pessoas que participaram do Asdrúbal (que hoje são senhores e senhoras) ainda estão trabalhando por aí, no teatro, na TV, no cinema. Fico contente de ver que nós todos estamos mandando ver, trabalhando, trocando ideias, isso é forte e as pessoas percebem isso. Foi lá que se formou este time, daquela escola, aquela turma.
Como são os eventuais reencontros, como no ano passado, que você dirigiu o Luiz Fernando Guimarães na peça da Fernanda Torres?
Os encontros são outra coisa boa. Na vida pessoal, a gente mantém o contato. Mandamos e-mails uns para os outros e nos encontramos. Várias pessoas passaram pelo Asdrúbal, acho que umas 20, ao longo dos dez anos, e não é entre todas que ainda rola aquela intimidade. Mas a amizade entre grande parte do grupo permanece. De tempos em tempos a gente produz alguma coisa juntos: cinema, teatro. No ano passado o Luiz Fernando Guimarães me ligou para dirigir a peça da Fernanda Torres. Nós demos gargalhadas juntos no telefone lembrando o que aconteceu há anos atrás. Fiquei encantado este domingo, quando fui assistir "MacBeth", com o Daniel Dantas, que foi um dos fundadores do Asdrúbal. Ele queria que o primeiro espetáculo do Asdrúbal fosse o "MacBeth", então quando assisti, tinha uma emoção a mais do que as outras pessoas, porque eu sabia que ele queria fazer este personagem há anos.
Você sente falta de um grupo jovem com a cara do Rio, da praia, que leve para o palco o nosso sotaque e humor como o Asdrúbal levava?
Não sinto falta porque sei que tem vários grupos começando em teatros alternativos no Rio de Janeiro. Acho que o Rio não carece de novas gerações de teatro. Não sinto falta porque sei que tem gente fazendo teatro aqui, com a energia da juventude que o Asdrúbal tinha. Eu enxergo isso no teatro do Rio hoje.
As peças do Asdrúbal
O Inspetor Geral – Primeira Montagem
Estreia - 12 de setembro de 1974 no Centro Israelita Brasileiro (CIB)
Viagens: Curitiba (Teatro Paiol) e Assis, interior de São Paulo (teatro da prefeitura local)O Inspetor Geral – Segunda Montagem
Estreia – Primeiro semestre de 1976 no Teatro Opinião (RJ)
Viagens: Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, São Paulo. No Estado do Rio, Barra do Piraí, Piraí, Volta Redonda, Paraty, Resende, Barra Mansa, Rio Claro, Rio das Flores, Paty do Alferes, Valença, Niterói e São Gonçalo.
Ubu
Estreia – 10 de outubro de 1975, no Teatro Louis Jouvet da Aliança Francesa (minitemporada de 2 semanas) e em seguida, 25 de outubro de 1975, no Teatro Experimental Cacilda Becker (RJ)
Trate-me Leão
Estreia – 15 de Abril de 1977, no Teatro Dulcina, para público (RJ) e 18 de Abril e 1977 para imprensa e convidados especiais (RJ)
Viagens: Rio Grande do Sul, Santa Maria, Caxias do Sul, Santa Catarina, Brasília, Salvador, Aracaju, Teresina, Recife, Fortaleza, Caruaru, Belo Horizonte
Aquela Coisa Toda
Estreia – 14 de janeiro de 1980, no Teatro Dulcina
Viagens: Salvador, Brasília, Florianópolis, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Paraty, Angra dos Reis e São Paulo
A Farra da Terra
Estreia – 4 de março de 1983, no Teatro SESC Pompéia (SP) e 19 de Agosto de 1983, no Teatro Ipanema (RJ)
Viagens: Niteroi, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Maceió, Natal, Recife, Caruaru, Fortaleza, Teresina e Belém do Pará
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