Memórias

Augusto Boal

28-12-2009 ////////

Um mestre do teatro brasileiro

Augusto Boal criou a metodologia Teatro do Oprimido

Considerado o testamento estético de seu criador, o livro “A Estética do Oprimido” foi finalizado e lançado em 2009, ano em que o Brasil e o mundo perderam um dos mestres do teatro: Augusto Boal. O teatrólogo foi um dos raros artistas a documentar seu trabalho desenvolvendo teorias através do Teatro do Oprimido, metodologia cênico-pedagógica - que une teatro e cidadania - conhecida e praticada internacionalmente.

Nascido no Rio de Janeiro, Boal formou-se em química em 1950. Aos 19 anos, já tinha os olhos e a mente voltada ao teatro e foi para os EUA estudar direção e dramaturgia na Universidade de Columbia, onde teve aulas com John Gassner – expoente da scholarship e da crítica norte-americana.

Retorna ao Brasil em 1956 e entra para o Teatro de Arena de São Paulo, no posto de diretor, ao lado José Renato. Por sua influência, o grupo passa a investir na formação dramatúrgica da equipe e se posiciona como companhia da esquerda brasileira. Boal adaptou o método de Stanislavski ao teatro em formato arena, experimento que resultou em um trabalho naturalista, inédito no país. Deste trabalho nasce o primeiro espetáculo dirigido por Boal, “Ratos e Homens”, de John Steinbeck, que lhe rendeu prêmio de diretor revelação pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes).

A primeira peça que assina não só a direção como a autoria é “Marido Magro, Mulher Chata”, do ano seguinte. O Teatro de Arena, porém, entra em uma crise com sucessivos fracassos. José Renato é quem salva o grupo com “Eles Não Usam Black-Tie”, de Gianfrancesco Guarnieri, de 1958. Interessado em continuar sua investigação de uma dramaturgia própria, Boal cria o Seminário de Dramaturgia do Arena, cuja produções criadas no encontro dão origem a fase nacionalista da companhia. Em 1959, Boal dirige “Chapetuba Futebol Clube”, de Oduvaldo Vianna Filho, “Gente como a Gente”, de Roberto Freire, e “A Farsa da Esposa Perfeita”, de Edy Lima.

O grupo realiza intercâmbio artístico constante com o Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa, em 1960 e, sob direção de José Renato, “Revolução na América do Sul” consagra Boal como um dos maiores dramaturgos da época. Em 1962, Renato sai da companhia e Augusto Boal assume o grupo modificando sua linha de repertório. Em 1962 entra na fase de nacionalização dos clássicos, com peças como “A Mandrágora”, de Maquiavel, e “O Noviço”, de Martins Pena, que elevam a qualidade de produção da companhia.

Com o golpe militar de 1964, Boal vai ao Rio de Janeiro dirigir o show “Opinião”, com Zé Kéti, João do Vale e Nara Leão (depois substituída por Maria Bethânia). O evento foi criado por um grupo de autores ligados ao Centro Popular de Cultura da UNE - CPC, com objetivo de criar um foco de resistência à ditadura.

Retornando a São Paulo, Boal inicia o ciclo de musicais no Arena. Em 1965 cria com Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo “Arena Conta Zumbi”, primeiro experimento com o sistema curinga – modelo de dramaturgia criado por Boal. A montagem é sucesso de público e dá força as novas versões de “Arena Conta...”, que resultam na teorização do método.

Em 1966 retoma os clássicos dirigindo “O Inspetor Geral”, de Nikolai Gogol. Em 68, o Teatro de Arena produz a primeira Feira Paulista de Opinião, no Teatro Ruth Escobar, com reunião de textos curtos de vários autores como Guanieri, Lauro César Muniz, Bráulio Pedroso, Jorge Andrade, Plínio Marcos e Boal.

Com a decretação do Ato Institucional nº 5, o Arena parte para uma excursão internacional pelos Estados Unidos, México, Peru e Argentina. Em 1970, Boal escreve e dirige “Arena Conta Bolivar”, inédita no Brasil.

Em 1971, Boal é exilado na Argentina por cinco anos. Lá ele desenvolve a estrutura teórica dos procedimentos do Teatro do Oprimido. Em 1978 se muda para Paris, onde cria um centro para pesquisa e difusão de sua teoria, o Ceditade. Em 1979 visita o Brasil para ministrar um curso no Rio de Janeiro. Após consagrar seu método no exterior, retorna ao país em 1980 para apresentar o Teatro do Oprimido
Com a anistia em 1984, o teatrólogo retorna ao Brasil, fixando-se no Rio de Janeiro – e continua viajando pelo mundo com cursos e atividades ligadas ao Oprimido. Convidado pelo então Secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro Darcy Ribeiro, Boal implanta a Fábrica de Teatro Popular, um projeto que capacita 35 animadores culturais com apoio de Cecília Thumin e Rosa Luiza Marques. A partir deste grupo, nasce o Centro de Teatro do Oprimido no Brasil.

Nos anos 80 e 90, o dramaturgo volta a dirigir espetáculos e lança vários livros teóricos. Premiado no Brasil e no exterior, em 2008 foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz e, em 2009, condecorado Embaixador Mundial do Teatro pela Unesco. Seu último título editorial foi finalizado meses antes de morrer, vítima de leucemia, em maio de 2009. O livro “Estética do Oprimido” (editora Garamond), lançado no mesmo ano, é a última rica herança que a arte brasileira recebeu de Boal. Fruto de experimentações práticas em laboratórios teatrais no Centro de Teatro do Oprimido, e da sistematização teórica de seminários, a obra foi escrita ao longo de oito anos de trabalho de pesquisa coletiva.
 

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Peças escritas

  • 1957 - “Do Outro Lado da Rua”
    1957 - “Marido Magro, Mulher Chata”
    1958 – “Martim-Pescador”
    1960 – “Revolução na América do Sul”
    1961 – “José, do Parto à Sepultura”
    1962 – “Julgamento em Novo Sol”
    1965 – “Arena Conta Zumbi”
    1965 – “Arena Canta Bahia”
    1967 – “Arena Conta Tiradentes”
    1967 – “A Criação do Mundo Segundo Ari Toledo”
    1968 – “A Lua Muito Pequena”
    1968 – “A Caminhada Perigosa”
    1970 – “Arena Conta Bolívar”
    1970 - Nova York (Estados Unidos) - Arena Conta Bolivar
    1971 – “Torquemada”
    1974 – “Tio Patinhas e a Pílula”
    1976 – “Lisa”
    1976 – “A Tempestade”
    1977 – “A Barraca Conta Tiradentes”
    1978 – “Murro em Ponta de Faca”
    1979 – “Milagre no Brasil”
    1980 – “Stop: C´est Magique”
    1985 – “O Corsário do Rei”
    1988 – “A História do Homem que Lutou Sem Conhecer Seu Grande Inimigo”
    1990 – “Somos 31 Milhões... e Agora?”
    1996 – “O Arco-Iris do Desejo”
    1996 – “A Heroína da Pindaíba”
    1998 – “A Herança Maldita - Um Boulevard Macabro”
    1998 – “O Amigo Oculto”
    2005 – “O Canto do Teatro Brasileiro I”