Misto Quente

Pedro Cardoso em "Os Ignorantes"/Divulgação

22-01-2010 ////////

Ninguém se cansa de Pedro Cardoso

O ator comemora uma década de sucesso em "A Grande Família" e com a peça "Os Ignorantes"

Em 2010, o ator Pedro Cardoso comemora 10 anos de atuação na série “A Grande Família”, da TV Globo, e inicia o ano com uma curta temporada de “Os Ignorantes”, em São Paulo - montagem que completa 12 anos de estrada. Parece muito tempo? Não para o ator que acredita que um bom papel só existe se inserido numa grande dramaturgia. “Um personagem pode nos cativar, mas o que amamos no fundo é a história que ele nos conta”, afirma.

Autor, ator e diretor, Pedro Cardoso começou no teatro em peças infantis na década de 80. O sujeito franzino e tímido logo despontou também no cinema e na televisão. Participou de filmes como “Os Bons Tempos Voltaram” (1984), “Dente por Dente” (1994), entre outros, além de protagonizar o longa “Redentor” (2004). Na TV, fez parte do elenco de importantes projetos, como “Anos Rebeldes”, “TV Pirata” e “Comédias da Vida Privada”. Versátil, desde o início de carreira também dirige e escreve textos. Possui mais de 14 peças escritas, algumas em parceria com Felipe Pinheiro (1960-1993). Se inspira na comicidade de ações curtas e cotidianas para criar. É assim com “Os Ignorantes”, monólogo que conta a história de José de Oliveira, um homem que sobreviveu a uma bala perdida quando menino. É tão cômico quanto crítico. Pedro Cardoso sabe para onde apontar o seu discurso.

Apesar de transitar muito bem entre o teatro, a TV e o cinema, Cardoso afirma que o ator se desenvolve com maior liberdade no tablado. “Não gosto de fazer cinema. Não do modo como o cinema é feito profissionalmente. Detesto a patética estrutura autoritária de um set de filmagem. Digo isso embora tenha feito alguns filmes dos quais me orgulho imensamente”, revela. Segundo ele, a mesma estrutura pode estar presente na televisão. “No entanto, eu, talvez por ter tido a sorte de trabalhar eventualmente com alguns diretores que nunca menosprezaram a autoria de um ator (a começar pelo Guel Arraes), e por ter lutado pela minha autoria também, encontrei nos trabalhos que faço na TV Globo uma grande liberdade e respeito a mim.”

Mas é no teatro que a liberdade é quase total. “No teatro não há tecnologia que se interponha entre mim e o público; não há meio físico que eu tenha que atravessar; o teatro é ainda artesanato! Não se pode industrializar o teatro. O teatro é pessoal!”

O ator confessa que nunca imaginou que Agostinho ou José de Oliveira tivessem tanto fôlego para completar uma década de vida. “O interesse que tenho, tanto em "Os Ignorantes" quanto em "A Grande Família", tem sido constantemente renovado pelo interesse que o público demonstra ter pelo programa da TV e pela peça de teatro”. Para ele, a influência do espectador é ingrediente fundamental para manter um personagem ativo. “Ouço o que eles me dizem na rua, nos comentários em blogs, nas reações à peça no teatro... Não perco qualquer oportunidade. Acredito que é esta atenção ao que as pessoas têm a dizer, e sua relação com esses dois trabalhos, que me mantém perseverante por tanto tempo. Eu já teria me cansado dos personagens se estivesse representando para mim mesmo. Mas do público, que sempre varia, não vejo como possa me cansar”.

Se ele pensa em aposentar os papéis? Todos os dias. Mas sempre desiste. “Acredito que a "A Grande Familia" ainda tem muitas histórias para contar. Diria mesmo que o programa é quase um telejornal de ficção; um espelho do Brasil que muda a imagem que reflete na mesma constância com que a realidade se movimenta”, filosofa. ”Mas pode chegar o dia em que estes personagens cedam sua relevância para outros que, naquele momento, serão melhores representantes de quem somos nós”.

O espetáculo “Os Ignorantes” fará uma pausa para Cardoso estrear um novo projeto em junho, “O Fantasma”, texto de sua autoria que irá abordar a história de Chico Mendes. Já é sabido, porém, que é só aparecer uma brecha para “Os Ignorantes” voltar à cena. “É provável que, como um cantor, eu sempre queira cantar meus velhos sucessos”.

Pedro Cardoso acredita que o êxito dos dois trabalhos por tantos anos não é mérito individual do ator e sim de uma equipe, a começar pelo autor. “O ator que trabalha pensando unicamente no seu personagem deixa de contar a história”, defende. “Para representar Hamlet ou Ricardo III ou o Agostinho é preciso estar atento à história na qual o personagem se movimenta. Não é dedicando-se a seu personagem que um ator terá clareza do arquétipo que ele é”. E sugere: “É indagando a si mesmo a respeito da história, do tema, do interesse que ela tenha para seus contemporâneos, que um ator poderá atingir alguma clareza sobre o personagem que representará. O que mantém, a mim e ao público, ainda interessados nos mesmos personagens por tanto tempo é o valor da história contada em "Os Ignorantes" e das histórias contadas em "A Grande Familia"“.

Saiba mais sobre a temporada de Os Ignorantes
Vídeo: veja treços da peça
Confira entrevista com o ator

 

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