Palco Social
13-10-2009 ////////
Ernesto Piccolo: Palco Social começou numa sala de aula
220 alunos e 16 anos de atuação
Como surgiu a ideia de criar o Palco Social?
Há 16 anos, eu dava aula de teatro na Candido Mendes e estava cansado de dar aula só, queria chamar um autor para escrever uma peça juntos. Aí minha ex-mulher, a Dadá Maia, me indicou o Rogério Blat, de quem já conhecia os trabalhos e que achava muito talentoso. O chamei para dar aula comigo na Candido Mendes e ele veio com a ideia de fazer um funk. Na época era o começo do inicio da era do funk. A gente começou a levar o tema para a aula e chamamos algumas pessoas para discutir o “Furacão 2000”. Durante os ensaios, o boy da faculdade, o segurança, o flanelinha, se interessaram pelo movimento e começaram a pedir bolsa para fazer teatro. Quando comecei a perceber que eles tinham interesse, resolvemos dar uma oportunidade. A Candido Mendes tinha um espaço muito pequeno e, quando vimos, tínhamos 45 alunos: 20 pagantes e 25 bolsistas. Aí começamos a procurar outro espaço. É um trabalho apaixonante, que a gente não consegue largar. Quase não ganhamos dinheiro, é difícil irmos atrás de patrocínio, mas não deixamos a peteca cair e continuamos fazendo os espetáculos.
Vocês tem algum patrocínio ou apoio financeiro?
Estamos doidos procurando. Viramos uma ONG para não depender do dinheiro público, estamos correndo atrás, mas está difícil. Os alunos não pagam nada. Eu e o Rogério amamos fazer isso, então nosso salário é a alegria, a projeção, a realização dessas pessoas todas e isso não tem preço.
Qual é o perfil dos alunos?
O grande barato desse projeto é que não tem idade, religião, raça. Reunimos um monte de gente de diferentes lugares do Brasil e que queiram contar uma história. É um barato ver essa comunhão de pessoas com um objetivo comum que é fazer uma história e contar essa história no teatro. Isso é muito gostoso, fascinante.
O que muda na vida dessas pessoas depois que elas começam a participar das aulas?
Acho que o teatro devia ser ensinado para crianças do mundo todo, inclusive nas escolas públicas. O teatro é uma maneira de você saber se portar com os olhares para você, então o teatro é transformador.
Algumas pessoas chegam aqui totalmente oprimidas e começam a conviver e a virar cidadãos, a terem dignidade e a descobrir a importância delas. É um barato ver a transformação. A Carla Cristina, minha assistente, que hoje manda em todo mundo, chegou aqui falando baixinho, não cantava, tinha vergonha. Passaram-se dois meses de oficina, ela já estava se expressando, falando alto, tomando conta de cena. A partir deste micro, que é o nosso projeto, é possível transformar o macro quando eles estão unidos, reividicam juntos. É uma soma de forças.
Quais foram as principais dificuldades encontradas por vocês para fazer com que o projeto desse certo?
Todas. Como somos muitos, temos dificuldade para encontrar lugar para ensaiar, para apresentar nossos espetáculos. Sempre que a gente se apresenta no Laura Alvim ou no Banco do Brasil, somos vistos como exemplo porque eles são lindos profissionais. Eles agarram essas oportunidades com unhas e dentes porque é o brinquedo que eles construíram.
Você acredita que a arte pode mudar uma sociedade?
Totalmente. É onde a gente vai discutir tudo, ou de forma lúdica, ou de uma forma forte, mas é o lugar onde vamos discutir tudo o que acontece na nossa sociedade. Através do teatro, do cinema, e a televisão poderia ser tão bem usada para isso.
Como é o trabalho de vocês na comunidade Pavão-Pavãozinho?
O nosso trabalho é levado para lá por assistentes. Alguns alunos estão no Palco Social há anos e a gente divide para cada um ajudar em um lugar para conseguirmos desenvolver esse trabalho. O Nathálio Maria, que está com a gente há 15 anos, toma conta de lá e a gente supervisiona. Eu tenho o maior carinho pelos meninos de lá, eles vem sempre aqui para participarem das oficinas.
Qual é a história da peça “Sorria, você está sendo roubado”?
“Sorria, você está sendo roubado” aborda todo o medo que as pessoas têm de serem roubadas, seja por meio de impostos, na rua ou por pessoas que enrolam as outras... Tudo o que nos é roubado no dia a dia é discutido de uma maneira engraçada, bem humorada e musical. Serão 60 atores. Estreia dia 6 de janeiro, no Glauce Rocha. (assista ao ensaio).
Quantas oficinas o Palco Social ministra?
Todos os profissionais que entram para fazer o cenário, o figurino, o adereço ou a coreografia, estão abertos para os alunos interessados participarem do processo de criação deles. Então, os alunos vão aprendendo na prática essas outras funções do teatro. Hoje, reunimos cerca de 220 alunos, entre crianças e adultos.
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Ao mestre, com carinho
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