Palco Social

28-12-2009 ////////

Favela Força

Grupo mostra que Vila Cruzeiro que dá certo não se resume a Adriano Imperador

Destaque do Festival Tempo, encerrado na última semana, o grupo Favela Força mostra que  a Vila Cruzeiro, favela carioca, não é apenas o lar doce lar de Adriano, jogador do Flamengo e artilheiro do último Campeonato Brasileiro. O grupo teatral dirigido por Fabiano de Freitas mostra seu novo espetáculo Favella Rouge, no estilo cabaré, dia 11 de janeiro no Sesi do Centro do Rio (21-2563-416). Depois segue para sua segunda temnporada européia, que começa na Holanda.

Como surgiu o grupo?
Já atuava como diretor de teatro a mais de dez anos, quando há 3 anos atrás o diretor da ONG IBISS, Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social, me convidou para criar uma peça de teatro com relação forte com o corpo e com o audivisual, por conta de ter que ser apresentada na Holanda (por isso a preferência por uma peça mais corporal, com menos texto). A peça era uma encomenda e teria que ficar pronta em 3 meses, o que não aconteceu. Depois de 1 ano e 3 meses estreamos a peça na cidade de Roermond, na Holanda. Para seleção do elenco realizei uma bateria de audições no projeto que a ONG mantém na Vila Cruzeiro, com divulgação em toda comunidade através de cartazes e de rádios comunitárias. A exigência: pessoas criativas que trouxessem para os testes suas habilidades específicas, com ou sem experiência em arte. Passaram mais de duzentas pessoas pelos testes, dos quais inicialmente passaram 18 e hoje o grupo conta com 12 integrantes.

Como ele foi descoberto pelo europeus?

Esta mesma ONG é membro de uma organização chamada United Cultures for Development, que mantém uma estreita relação com uma produtora sediada em Tilburg, no sul da Holanda, já muito próximo da Bélgica, chamada Mundial Productions. O Mundial está interessado em promover intercâmbios culturais com iniciativas de desenvolvimento de cultura em países como o Brasil, países africanos e asiáticos. Por isso nos convidaram para a primeira turnê, sendo que o Favela-força é, por enquanto, o primeiro grupo de teatro a fazer parte destas iniciativas (até então eles só vinham trabalhando com música, dança, folclore e culturas específicas).

Quantas vezes vocês já viajaram?
Esta será a segunda turnê do grupo todo, a primeira aconteceu na temporada de inverno de 2008 e esta acontecerá em janeiro de 2010. No entanto, alguns membros do grupo fizeram outras viagens de intercâmbio, para os Estados Unidos, Canadá, França e Holanda. Em 2010 o grupo também está em negociação para uma curta temporada na África do Sul, dentro de uma proposta de intercâmbio "sul-sul", para o qual já tem um primeiro apoio da Mundial Produções, mas que ainda necessita de patrocínio.

O que voce atrai mais o público estrangeiro?
Segundo as boas críticas que ouvimos na última turnê, o grupo reúne algumas características fundamentais: consegue passar um perfil de atualidade de uma favela, sem os clichês comuns, tem uma mensagem clara e o profissionalismo dentro disso (apesar de ser um grupo formado inicialmente por não-profissionais, a abordagem é extremamente profissional, passando por formação e um rigor intenso dentro do processo criativo).  A idéia da "favela" tem bastante destaque internacional, através de filmes como "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite", livros, fotografias e através da imprensa. Todas estas abordagens, com algumas excessões, tem o caminho do hiper-realismo na sua criação, ou seja, são obras "nuas e cruas", ainda que filmes como o 'Cidade de Deus" sejam uma referência das mais importantes pro cinema nacional, um marco. Mas no caso do grupo, a abordagem é extremamente poética e há uma pesquisa em andamento, a tal da cultura da favela. No Favela-força não estamos preocupados em mostrar que o ator da favela é capaz de fazer o teatro do asfalto, o teatro tradicional. Isso já sabemos, ele é capaz sim, e atuações de grupos como o Nós do Morro mostram bem isso e cumprem este papel. No Favela-força nos interessa uma pesquisa de que teatro estamos fazendo ali. Neste sentido ele é contemporâneo e antenado com um dos maiores fenômenos urbanos do mundo, que é a própria favela.

Aqui, vocês conseguem se apresentar?
Aqui ainda não tivemos a oportunidade de uma temporada. Há interesses mais específicos ainda apenas da área social, e de alguns setores mais interessados nos novos caminhos da arte, de maneira mais ampla, como é o caso do TEMPO_Festival das Artes, em que acabamos de nos apresentar na última sexta-feira. Ou seja, ainda estamos variando entre o mais popular e o mais conceitual, mas ainda não atingimos o grande público.

Os integrantes se dedicam só ao teatro?
Infelizmente a maior parte deles precisa se dividir entre o teatro e atividades de trabalho que nada tem haver com formação artística. Estamos tentando mudar eta situação através de projetos de patrocínio, mas ainda não conseguimos avançar na captação de recursos.

Voce já pensam apenas em um novo espetáculo ou agora já miram o público estrangeiro?
A base do grupo é a pesquisa, e cada vez mais estamos focados no trabalho de formação do grupo e de ampliação do projeto, para além dos espetáculos. No entanto, o interesse internacional é um grande incentivo para nossa continuidade enquanto ainda não conseguimos furar, nem a política cultural, nem os esquemas de marketing das possíveis empresas apoiadoras. Mas acreditamos que os espetáculos sejam interessantes para todos os públicos, tentamos uma comunicação universal. O público-estrangeiro continua na mira, mas também temos na mira o nacional e a própria comunidade, é claro.

O Nós do Morro é uma referência?
Respondo essa pergunta acima sem saber que estaria aqui. Sim, o Nós do Morro abriu todos os caminhos para este teatro que vem da comunidade. Mas ao mesmo tempo nossa proposta é totalmente diferente, quem sabe amanhã faremos Shakespeare ou Lorca na Vila Cruzeiro, mas só escolheremos isso se for a melhor maneira de levarmos adiante nossa pesquisa da dramaturgia, do corpo, da sonoridade da favela. Estes dragões deverão estar a nosso serviço. Amanhã talvez possamos descobrir que Beckett é uma excelente maneira de comunicar e recortar nossa pesquisa. Seria lindo. Eu diria que Nós do Morro, esta referência com uma história fantástica, e Favela-forca, ainda começando a caminhada, são complementares.

Algum integrante já conseguiu um destaque solo, seja em cinema, TV ou mesmo peça de outro grupo?
Um dos atores do grupo, Mauricio Lima, está trabalhando com a renomada diretora Bia Lessa no espetáculo Formas Breves, fez uma temporada no Teatro Tom Jobim, no Rio e terminou uma agora no SESC Vila Mariana em São Paulo.

O Adriano conhece vocês?
Não sei dizer se o Adriano nos conhece ou ouviu falar de nós. Ele sempre está na comunidade como os jornais noticiam, é fácil encontrá- lo por lá na saída ou chegada pro ensaio. Mas não teve contato direto com o grupo ainda.

Tirando ele, vocês são a referencia posiitva da Vila Cruzeiro, não? Como os moradores tratam vocês?
Sim, somos uma referência sim, temos consciência disso. Além do grupo Favela-força e do Adriano, eu citaria o Espaço IBISS Vila Cruzeiro, o projeto que recebe 5000 pessoas por mês em atividades esportivas e oficinas culturais.
Mas percebo que a comunidade tem uma relação forte de admiração para com os membros do grupo, por conta destas conquistas. Além disso, percebo curiosidade. Sabemos que o que fazemos é um tanto conceitual, mas só faz sentido se a comunidade consegue, intuitivamente, sensorialmente, se reconhecer ali. Quando eles assistem a uma cena, uma intervenção qualquer, e se abrem para aquilo, sinto que conseguimos. No ano de 2010 pretendemos estreitar mais ainda esta relação através de "oficinas de criatividade", em que os membros do grupo vão exercitar com os moradores esta possibilidade infinita de expressão que o teatro dá. Vai todo mundo fazer um pouquinho de teatro lá.


 

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