Palco Social
15-03-2010 ////////
Ao mestre, com carinho
Terça, 16 de março: Dia Mundial do Teatro do Oprimido
Nesta terça-feira, uma corrente do bem será formada em diferentes cidades do mundo. Todos unidos em uma mesma filosofia, uma mesma paixão: dia 16 de março se comemora o Dia Mundial do Teatro do Oprimido, método teatral e social idealizado pelo mestre Augusto Boal (1931-2009). Centenas de grupos, em mais de 70 países, se organizaram para comemorar a data. No Brasil, a festa será no O Centro de Teatro do Oprimido, no Rio de Janeiro e em Natal, no Rio Grande do Norte. Um evento público gratuito de arte e conscientização social. A curinga e atriz Helen Sarapeck, coordenadora geral da instituição no Brasil, explica com detalhes as atividades, comenta sobre a troca de informações com outros países e, claro, sobre a imensa saudade de Augusto Boal, que completaria 79 anos neste dia.
Como os praticantes de Teatro do Oprimido se organizam para comemorar o Dia Mundial do Teatro Oprimido?
No dia 16 de março teremos gente comemorando a data de todas as formas distintas. Uns fazem apresentações teatrais, outros montam exposições com produtos da estética do Oprimido, outros criam debates na internet. Cada um descobre a forma de comemorar, que em geral, são formas combativas. Não estamos aqui para apreciar o mundo, mas para transformá-lo, e tentar diminuir as injustiças que assolam o planeta Terra. Existem muitos grupos organizados de Teatro do Oprimido (TO) pelos continentes. São grupos africanos, australianos, europeus, americanos e asiáticos. A além de praticantes e multiplicadores que fazem o trabalho, mas não são ligados diretamente a nenhuma organização. O Teatro do Oprimido está em mais de 70 países e é um dos métodos teatrais mais usados em todo o planeta, se não for o mais usado, afinal, não é utilizado somente por atores e trabalhadores da cultura, mas por todo e qualquer cidadão. Por isso o TO encanta, conquista! Porque mostra que todo mundo pode fazer teatro e usá-lo para transformar a sociedade em que vivemos e não nos satisfaz.
Conte um pouco da programação. Há algum tema específico?
A ideia é comemorar, homenageando Boal com parte do trabalho que desenvolvemos. Então propusemos um evento com três momentos distintos, que se dividem também tematicamente. Começamos com a manhã dedicada a educação. Vamos apresentar um espetáculo formado por estudantes e um vídeo sobre o trabalho que realizamos nas escolas com professores, estudantes e funcionários e moradores. O público especialmente convidado é o escolar. O debate gerado pelas apresentações artísticas, com certeza será interessante para quem trabalha com educação formal e não-formal. A parte da tarde terá foco em nosso projeto na área da Saúde Mental (Teatro do Oprimido na Saúde Mental) com apresentações teatrais de grupos formados por familiares e portadores de transtorno psíquico, que discutem o preconceito no trabalho, ou mesmo na busca dele, algo que aflige praticamente todo portador, e em consequência, a família. Quando a noite chegar, as apresentações terão foco em nosso projeto de formação de multiplicadores em todo território nacional, além de Moçambique e Guiné-Bissau (Teatro do Oprimido de Ponto a Ponto). Vídeos, apresentações musicais e poesia cantada fecharão a noite com uma série de homenagens ao nosso mestre. Uma festa colorida e bem brasileira com direito a forró fechando a noite. Durante todo o evento, a exposição “Viva Boal!” estará aberta a visitação com fotos e livros de Augusto Boal.
Os Grupos de Teatro do Oprimido terão algum meio de comunicação durante o evento?
Estaremos conectados via internet. Pelo skype será possível transmitir nosso evento para o mundo. Também tentaremos ver e ouvir um pouco do que estará acontecendo nas demais cidades e países através da instalação de câmera e telão.
Em maio completa um ano sem Augusto Boal. Como foi este período de adaptação?
Marcado por dois sentimentos: dor e luta. Redescobrimos sem Boal o que ele nos ensinou em vida: manter o foco no que queremos e ter força para transformar o que não queremos. O Teatro do Oprimido é uma filosofia de vida. Não se pode parar algo que está enraizado em nossos corações. Continuar a desenvolver os projetos e até ampliar as ações faz parte de nosso sonho de vida. Boal foi nosso mestre, companheiro e um amigo jamais egoísta. Todas as ideias, propostas, decisões de Boal eram compartilhadas com a equipe do CTO que desenvolvia as atividades. Foi assim com seu último livro A Estética do Oprimido, escrito e reescrito depois de seminários e discussões que tinha com nossa equipe. Portanto, estar sem Boal não significa estar sem rumo, pois suas ideias e pensamentos andam conosco 24 horas por dia. Boal estará presente para sempre através de sua maior criação: o Teatro do Oprimido.
Quais são os projetos da equipe brasileira de curingas para 2010?
Vários, mas existe um em especial: a criação do Centro Internacional de Teatro do Oprimido (CITO), um sonho que temos há alguns anos, mas que a realização cada vez se torna mais urgente. A ideia é levar nosso projeto de formação de mutiplicadores e multiplicadoras para dentro de nossa Casa. Ou seja, desenvolver programas de formação que fazemos em outros estados e países, em nossa própria sede. Transformar o Centro de Teatro do Oprimido em uma escola, que atenda gratuitamente brasileiros, sul-americanos e africanos. Esse projeto já tem inclusive o selo da Lei Rouanet. Falta somente o patrocínio.
Como se tornar um curinga do Centro do Teatro Oprimido?
Sendo apaixonado pela vida e trabalhando arduamente. Um curinga precisa acumular funções distintas, como direção, atuação, produção, além de características imprescindíveis para sua formação. Um curinga precisa ser dinâmico, organizado e ter muita paciência. Mas o que o torna um verdadeiro profissional do Teatro do Oprimido é seu desejo de mudança, sua insatisfação com o mundo que vê quando abre a janela de seu quarto. Sua força de mudar um mundo que pode e deve ser transformado através da arte, com muita ética e solidariedade.
Como é a experiência de ser um curinga?
Costumo dizer que uma vez que alguém conhece o Teatro do Oprimido não o abandona jamais. O mesmo sentimento recai sobre o curinga. Uma vez feita a primeira experiência de sê-lo, impossível deixá-lo de ser. A experiência vira atuação de vida, meta, objetivo, caminho a se caminhar. Me sinto comprometida com a transformação do mundo. Me sinto peça obrigatória nela. Sinto que corro, ao invés de estar parada. Sei que preciso do mundo para viver, mas sendo curinga é que percebo que o mundo também precisa de mim.
Saiba mais sobre o evento
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