Palco Social

13-10-2009 ////////

Nós do Morro segundo Guti Fraga

Diretor fala sobre importância social e artística do grupo

Noventa e três peças encenadas. Vinte e três prêmios ganhos. Quinhentos integrantes. Vinte e três anos de grandes conquistas. Esses números formam a história do grupo de teatro Nós do Morro (veja aqui trechos de “Machado a 3x4”), que nasceu com o objetivo de dar acesso à arte e à cultura às crianças, jovens e adultos do Morro do Vidigal. O pai deste projeto é o jornalista e ator Guti Fraga, que sonhava em apresentar a magia dos palcos para os moradores da comunidade.

O sonho de Guti se tornou realidade e, atualmente, o Nós do Morro oferece cursos de formação nas áreas de teatro (atores e técnicos) e cinema (roteiristas, diretores e técnicos). As aulas ultrapassaram as barreiras do Vidigal e chegaram a Saquarema, Japeri, Itaocara, Nova Iguaçu, Liverpool e Londres. A popularidade do grupo cresceu ainda mais quando Roberta Rodrigues, Thiago Martins, Marcello Melo e Babu Santana (leia a entrevista dos quatro atores), entre outros, espalharam o nome do Nós do Morro pelos quatro cantos do mundo com o sucesso de seus trabalhos na TV, no cinema e no teatro.

Nesta entrevista, Guti Fraga, que viu a trajetória do Nós do Morro transformar-se em livro (“Nós do Morro, 20 anos”), fala sobre arte, revela as principais dificuldades encontradas para conseguir que o projeto desse certo e faz um balanço dos 23 anos do grupo.

Como surgiu a ideia de criar o Nós do Morro?
Pensei em tornar possível aos jovens da comunidade do Vidigal desenvolver seus talentos artísticos. A proposta era simples: formar atores e técnicos, além de apresentar a magia do teatro para os moradores de uma comunidade que não tinha acesso à arte.

O que mudou na comunidade depois da criação do grupo?
Muitas coisas mudaram. Como o nosso trabalho é muito árduo e existem muitas ações em andamento, não temos um mapeamento de todos os impactos positivos que o Nós do Morro trouxe para comunidade. O que posso afirmar é que hoje no Vidigal ir ao teatro ou assistir uma sessão de cinema não é mais só “coisa de rico”. Ter acesso a atividade culturais passou a fazer parte do cotidiano da comunidade. É uma experiência muito construtiva de democratização cultural.

Quais foram as principais dificuldades encontradas por você para fazer com que este projeto desse certo?
A principal dificuldade foi persistir durante 15 anos sem apoio financeiro e sem aceitar ofertas de patrocínio que estivessem relacionadas à miséria. E esta persistência nos levou a aprimorarmos a qualidade do nosso trabalho a ponto de sermos reconhecidos e passarmos a contar com o patrocínio da Petrobras desde 2001.

Você acredita que a arte pode mudar uma sociedade?
No nosso caso ela mudou. O que nos diferencia da classe média é somente o financeiro e não o intelecto. Isso é uma transformação.

Existe um “estilo Nós do Morro” de atuar, isto é, uma característica que une os alunos do grupo?
Buscamos um caminho coloquial para que possamos dar os primeiros passos para o desenvolvimento do ator criador. Temos liberdade de buscar e experimentar novas formas de linguagem nas nossas encenações.

Como você avalia a trajetória do Nós do Morro de 1986 até hoje?
É uma trajetória que se assemelha a uma teia em construção. O Nós do Morro começou com 22 pessoas. Hoje somos mais de 500 e nossa filosofia de trabalho já está sendo multiplicada pelos primeiros alunos. Nossa intervenção artística chegou a outros lugares como Saquarema, Japeri, Itaocara, Nova Iguaçu, Liverpool, Stratford-Upon-Avon e Londres. O próximo passo é estabelecer parcerias com as escolas municipais e estaduais. Para o Nós do Morro, cultura e educação andam de mãos dadas.

Muitos alunos do Nós do Morro estão hoje fazendo sucesso na TV e no cinema. Isso serve de estímulo para alunos e todos os envolvidos no projeto?
Ter o trabalho divulgado nos meios de comunicação facilita com que as pessoas que estão começando visualizem que é possível. Mas esta visibilidade não pode ser confundida com querer viver como celebridade, mas sim ser um ator profissional atuante nas nossas bases de trabalho.

Fale sobre o livro “Nós do Morro, 20 anos”.
Este livro é um divisor de águas. Uma reflexão sobre as diferentes possibilidades de se viver a arte.
 

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