Reportagens
10-03-2010 ////////
Teatro Falado
Inez Viana e Newton moreno conversam o universo nordestino
Os dois tratam do universo nordestino como ninguém. Ela está em cartaz no Rio com “Conchambranças de Quaderna” de Ariano Suassuna; ele reestreou em São Paulo “Memória da Cana”, de Nelson Rodrigues. Com este espetáculo, Newton Moreno dá continuidade ao movimento de retorno às origens pernambucanas também presente em “Agreste”, “Assombrações do Recife Velho” e “As Centenárias”. Já Inez Viana, traz para os palcos um texto inédito de Suassuna, que reúne duas peças em uma só, ligadas por um mesmo narrador, Dom Pedro Diniz Quaderna, personagem principal do famoso romance, “d’Á Pedra do Reino”. Nesse encontro, os diretores falam sobre o interesse de ambos pelo nordeste brasileiro e revelam curiosidades sobre seus espetáculos.
Inez: Seus textos, além de brilhantes, têm um ritmo intenso, fala dos excluídos e tem uma dicção particular. De onde vem tanta inspiração?
Newton: Os textos que têm por cenário o Nordeste têm inspiração nas figuras populares que conheci em toda minha vida. Sou de Recife e no trânsito capital-interior, fui me encantando pela prosódia, pelo humor, pela fé, pelo exemplo de resistência destas figuras. Algumas expressões e sonoridades estão na minha memória, outras eu criei, inspirado pelos artistas populares. Devo muito a estas pessoas que cruzaram meu caminho.
I: Você vê alguma semelhança no que escreve com outros autores nordestinos?
N: Quando me aproximo do reino da comédia, eu vejo referências claras, como a dos contadores e brincantes do Nordeste e sua agilidade em 'montar' e 'desmontar' de estórias e personagens. O artista do circo mambembe, do mamulengo, de rua. Obviamente, há os autores como Luiz Marinho e Ariano Suassuna que são grandiosos em empreender esta escuta e a negociação entre o popular e a erudição de sua(s) escrita(s). Mas a grande poesia de João Cabral e Guimarães Rosa ainda segue como fonte máxima de inspiração.
I: Você é saudado como o autor de sua geração. E é uma geração profícua, de bons autores. Ainda acha que falta uma escola para autores? A que atribui isso?
N: Não me considero o autor de minha geração, mas sim um autor desta geração. Felizmente temos Pedro Brício, Sérgio Roveri, Daniela Pereira, Antônio Rogério Toscano, Schapira, Sérgio Módena, não nos faltam nomes. Mas sinto falta de uma grande escola de dramaturgia. Ações estão sendo feitas nos Núcleos do SESI, em Escolas de Teatro, enfim, ainda acho que pode se caminhar nesta pedagogia para formar novos dramaturgos.
Newton: Como você chegou a este texto praticamente inédito de Suassuna?
Inez: Quando recebi o convite do João Carlos Rabello para dirigir uma peça para a FITA, imediatamente pensei em Ariano e fui ao Recife falar com ele, que então me mostrou As Conchambranças de Quaderna, que só havia sido montada duas vezes no Recife.
N: Ele dialogou com você sobre mudanças no texto?
I: Sim. Ele me sugeriu que eu fizesse apenas duas, das três histórias, devido ao pouco tempo de ensaio que teríamos até a estréia.
N: Conte-nos um pouco do seu processo de trabalho com os atores.
I: Gosto de abrir ao máximo o texto com improvisações, músicas, leituras paralelas e jogos.
N: Pode nos falar de seus novos projetos como diretora?
I: Em maio dirijo um show em homenagem ao João do Vale, com os cantores Teresa Cristina, Chico César e o grupo Pedra Lispe. Em teatro, tenho dois projetos para este ano, um autor inglês e o outro mineiro, mas ainda é cedo para falar deles.
N: Você conhece a dramaturgia contemporânea nordestina?
I: Pouca coisa. Além de Ariano e você, só conheço Bráulio Tavares, Lourdes Ramalho, João Falcão e João Denys.
N: Pretende continuar a trabalhar com textos de autores do Nordeste?
I: Com certeza, aliás, já que tocou no assunto, tem algum na gaveta? Adoraria atuar ou dirigir um texto seu.
N: Soube que Ariano Suassuna quer escrever para você. Vocês já conversaram?
I: Pois é, levei o maior susto! Soube que seria um monólogo. Até bem pouco tempo, ele havia me dito que estava escrevendo uma peça para dois atores. Então liguei e ele confirmou: É um monólogo mesmo. Que coisa linda...
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