Reportagens
13-10-2009 ////////
Festival de Bonecos
Grupos agitam São Paulo
Quatro companhias de teatro de bonecos estão em cartaz com programação comemorativa: A Cia. Imago festejam 10 o novo “A Mulher que Matou os Peixes”,. Também comemorando uma década de trabalho, a Cia. Articularte e Circo de Bonecos trazem variadas peças no mês de outubro. No embalo dos 25 anos, a Pia Fraus traz o novo “Filhotes da Amazônia”. Um verdadeiro festival de bonecos com grupos que, com muito estudo e criatividade, realizam um teatro de extrema qualidade voltado a crianças.
Não é de agora que pais, sem medo algum, incluíram em seus passeios com a criançada a ida ao teatro. Nos últimos anos, o segmento deu salto em qualidade e se antes as sessões infantis viviam às moscas, hoje é comum não encontrar ingressos para alguns espetáculos, se chegar em cima da hora de abrir as cortinas.
Pelo menos quatro grupos acompanharam essa evolução e são também co-responsáveis pela elevação de qualidade das produções. Há dez anos, o Circo de Bonecos, comandado por Cláudio Saltini, estreou “Circus – A Nova Tournée”, espetáculo que mistura fantoches, marionetes e bunraku para recriar o mundo circense. A montagem premiada tornou-se um clássico da companhia e está de volta em programação especial que celebra o aniversário de uma década de trupe. “Para criar a peça, ficamos pelo menos seis meses percorrendo os circos da cidade”, relembra Saltini. “Foi cerca de um ano e meio de trabalho e estudo até a peça chegar ao palco.”
A montagem faz parte de um repertório consolidado da companhia, outra característica que marca este segmento. “Finalmente o Brasil começa a criar grupos que trabalham com repertório”, elogia o diretor. “Não é porque um trabalho tem dois anos que ele se torna ruim. Ao contrário: o teatro é vivo e você vai mudando detalhes no decorrer das temporadas.”
Dario Uzam, da Cia. Articularte, observa que para o teatro adulto é mais difícil manter um repertório com a intensa disputa das salas em horários nobres, além de ter de conciliar as agendas dos artistas – que fazem trabalhos independentes. “O teatro infantil consegue ter mais giro”, acredita Uzam. “Nós, por exemplo, temos um programa voltado para escolas com razoável aceitação. Chegamos a fazer até 300 apresentações por ano.” O grupo mantém o projeto Casa de Bonecos em São Paulo, que além de espetáculos gratuitos, promove oficinas. No mês de outubro, em comemoração ao Dia da Criança, apresenta clássicos como “A Cuca Fofa de Tarsila”, um sucesso desde 1999, “O Valente Filho da Burra”, “Era Uma Vez Eu” e “Chapeuzim Vermelho e o Lobo Marrom”. “É bem difícil fazer peça para criança”, avalia Uzam. A companhia promove um intenso trabalho de pesquisa para cada espetáculo. “Para “O Valente Filho da Burra, por exemplo, lemos muito sobre este tema, as obras de Câmara Cascudo, e tivemos a idéia de utilizar o teatro de sombras neste contexto”. E para isso foi preciso aprender a técnica até se sentirem confortáveis para aplicar o estilo da companhia.
Já a Cia. Imago encontrou no teatro negro um elo forte de comunicação com os pequenos. Em uma década de trabalho, se tornaram referência no uso da arte e montaram repertório com mais de 15 espetáculos. “A criança é muito espontânea e se fizer uma peça arrastada, ela não vai querer ficar na sala”, explica Anhê. “Você tem que entreter com o texto e visualmente. A infância atual, devido à era tecnológica, tem outro ritmo, é mais dinâmica e temos de acompanhar isso.” Não é à toa que a trupe tem conquistado pequenos de todas as faixas etárias em “A Mulher que Matou Os Peixes” saiba mais sobre o espetáculo), um dos poucos textos que Clarice Lispector escreveu para crianças. “Leio Clarice desde adolescência e adie até hoje para fazer qualquer montagem a partir de sua obra. “Sempre imaginei que seria uma peça adulta, mas a autora surgiu nesses 10 anos de companhia e criei coragem para adaptar o texto que é bem fragmentado, embora exista uma história atravessando tudo”.
Pia Fraus, com 25 anos de estrada, traz ao palco “Filhotes da Amazônia” (leia mais sobre a peça), uma espécie de ‘cria’ de outro espetáculo: “Bichos do Brasil. Ambos seguem a linha de pesquisa da brasilidade e da dramaturgia sem texto. Para dar vida à história, com pequenos esquetes que se passam em meio à selva amazônica, três atores manipulam 50 bonecos. “A ideia central do espetáculo é a relação dos pais com seus filhotes, tanto entre os animais como entre os seres humanos, mostrando a proximidade existente nas relações entre pais e filhos de qualquer espécie”, explica Beto Andreetta, diretor e um dos fundadores da companhia.
Artes plásticas, ecologia, família, literatura. As peças em cartaz são prova de que o banal e o fácil não se encaixam no teatro infantil contemporâneo. E no gosto do pequeno espectador. O mérito dessa qualidade os grupos preferem dividir com a platéia. “Todos nós e muitas outras companhias, como a Truks e Furunfunfum, temos competência para mostrar nosso teatro para o mundo inteiro”, afirma Claudio Saltini, do Circo de Bonecos. “Mas o principal nesta jornada é que mudou o comportamento da família em relação ao teatro infantil. Ela passou a se interessar e estimular a formação desses novos espectadores”. Um comportamento que com o passar dos anos refletirá no público do teatro adulto. É o caminho natural das coisas.
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