Reportagens

Lígia e Júlia: duelo no palco/ Divulgação

14-10-2009 ////////

Duelo de rainhas

Duas grandes atrizes se encontram pela primeira vez na encenação de um clássico do teatro

Julia Lemmertz e Lígia Cortez vivem grandiosas rivais em “Maria Stuart”, clássico do alemão Schiller, escrito em 1800, com direção de Antonio Gilberto, a partir da tradução de Manuel Bandeira. Julia interpreta Mary Stuart da Escócia enquanto Lígia encara Elizabeth I da Inglaterra, papel que foi vivido por Clarice Niskier na estreia da montagem, em janeiro. Amigas na vida real, esta é a primeira vez que se encontram no palco. Um momento especial para ambas, conforme relatam num bate-papo com cafezinho horas antes de o espetáculo começar.

Julia Lemmertz: A peça estreou em janeiro, em Brasília. Quem fazia o papel de Elizabeth I era a Clarice Niskier, que acompanhou todo o processo da produção. Paralelamente, continuou com a sua peça “A Alma Imoral”, um baita sucesso produzido por ela. Não nos preocupávamos com o trabalho duplo porque sempre consideramos que “Maria Stuart” teria uma temporada curta, devido ao numeroso elenco. Fizemos com a maior paixão, claro, mas sempre com a ideia de que seria um evento isolado. E Clarice se deu esse tempo para fazer. Porém, a peça foi se estendendo e chegou um momento em que ela teve de escolher. Para substituí-la, logo pensei na Lígia. Somos amigas de muitos anos, temos histórias de vida parecidas, mas nunca conseguimos trabalhar juntas. Para minha sorte, ela aceitou.
Lígia Cortez: Ou minha! (risos). Tivemos de ensaiar um pouco em São Paulo e um pouco no Rio de Janeiro, era um tempo curtíssimo, mas tudo valeu à pena.

Julia: É um espetáculo dificílimo para se trabalhar espiritualmente, intelectualmente. Se a gente que está desde o começo ainda trava essa luta, imagina pegar o bonde andando!
Lígia: Nem lembro que estou substituindo outra atriz.
Julia: O que é bacana é que Lígia está, de fato, substituindo ninguém. Ela entrou para fazer uma peça do jeito que ela imaginou. Mesmo com a correria da estreia, encontrou um tempo interno para a construção dessa personagem, uma visão pessoal.
Lígia: Eu já conhecia a peça, a personagem, já imaginava um pouco a Elizabeth e isso ajudou. Além de o elenco ser bárbaro. Eu pensei: não vai dar. Mas quando vi que a peça tinha texto de Manuel Bandeira, não resisti. É um projeto de teatro, ousado. É gente e teatro. Uma equipe familiar, com os mesmo valores, com gente que gosta da arte. E isso faz de “Maria Stuart” uma montagem muito especial pra mim. Julia é uma irmã. A gente se encontra artisticamente em personagens conflituosas, mas com a vida muito similar. É como entrar para uma família.
Julia: Temos filhos da mesma idade, pais artistas, casamento semelhante. Gostamos de gato... A gente se devia esse encontro.
Lígia: A Júlia teve um caminho muito bonito na televisão: sério, reservado e único, além do reconhecimento no cinema. Eu tenho outro trajeto, que é voltado para formação do pensamento do teatro, mais conceitual, que desenvolvo no Teatro Escola Célia Helena. De repente, a gente reúne essas bagagens profissionais em um mesmo projeto. Está sendo maravilhoso.
Julia: O curioso é que, na peça, o tempo todo tem as duas personagens, Maria Stuart e Elizabeth I, se intercalando em cena. Temos só um momento juntas, o final. É uma cena extraordinária. Tem uma mágica que é como se, em todas as sessões, vivêssemos cada pedacinho dela pela primeira vez. É uma coisa que está viva, tem uma pulsação. E a gente está muito disponível para esse jogo.
Lígia: A gente se prepara cada uma na sua concentração, vivendo a peça.
Julia: O Schiller constrói isso. É um encontro cheio de significado, de sentimento: tem amor, inveja, admiração. Tem tudo ali. E quando estou olhando para Lígia, em cena, penso em todas as questões que permeiam a vida dessas mulheres.
Lígia: Quando vou dormir depois das apresentações, fico pensando cada migalhinha da peça. É um texto lindo e muito bem construído, uma história rara. Schiller trabalha o feminino sem caricatura. São duas grandes mulheres, rainhas em tudo, com sentimentos grandiosos, primitivos, de vida e morte, tem uma grandiosidade e uma história que encantam. A plateia fica num silêncio total, atenta. Não faz nem cof cof. (risos)
Julia: É um silêncio de atenção, as pessoas ficam suspensas. Ao contrário do que a gente vive no mundo hoje, cheio de imagem, som e fúria, onde tudo é rápido. Peça, filme: tudo tem que ter uma hora e meia no máximo. Fazer uma montagem como “Maria Stuart”, de três horas de duração, é ir na contramão de uma enxurrada de coisas da vida. Mas é fundamental voltar a esses lugares e perceber que o pensamento humano deve ser levado em consideração. A gente tem que se reavaliar de vez em quando, parar, olhar o passado e aprender com ele. Ver o que já se fez de bom. Para um ator que não passa por um texto como este fica difícil alcançar a dimensão de um total do teatro. Pode fazer 500 comédias geniais, mas se não passa por uma tragédia, você fica incompleto. Em uma obra como esta, nos deparamos com questões muito exigentes tanto para você como ator ou como pessoa.

Veja o serviço da peça

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