Reportagens
27-01-2010 ////////
Maldição
Aderbal Freire-Filho assina montagem com Daniel Dantas e Renata Sorrah
Se a receita é antiga, é no modo de preparo que se alcançam os novos sabores. É mais ou menos essa a sensação que fica depois de ouvir os atores Daniel Dantas e Renata Sorrah defenderem seus personagens na nova montagem de “Macbeth”, o clássico de Shakespeare, com direção de Aderbal Freire-Filho, atualmente em cartaz no Rio. E põe antiga nisso. Acredita-se que o texto tenha sido escrito entre 1603 e 1607, portanto, há mais de 400 anos e já foi encenado um sem número de vezes. Mas não da forma como está sendo apresentado atualmente no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico. É o que garantem os atores.
Macbeth já vinha assombrando a vida de Daniel Dantas – também coprodutor da nova montagem, com Maria Siman – há
um bom tempo. Desde a época do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, quando encenou “Ubu Rei”, uma versão do francês Alfred Jarry para o personagem de Shakespeare e até mais recentemente quando fez o papel de um ator que fora convidado para interpretar Macbeth no grupo teatral retratado na minissérie da TV Globo “Som e Fúria”. Para ele, no entanto, a decisão de evocar Macbeth, nos dias de hoje, é mais simples: “A gente monta o que gostaria de assistir”.
É fato que um texto tão forte e que já foi defendido por tantos atores consagrados – como Paulo Autran, John Gielgud
e Laurence Olivier, como Macbeth; Tonia Carreiro, Helen Mirren e até Vivien Leigh, no time das meninas, só para
citar alguns – gera uma certa apreensão – “Tenho ódio da (atriz) Sarah Siddons, que dizem que arrasava fazendo a
Lady Macbeth”, brinca Renata, se referindo a uma montagem do século XVII.
Mas o que preocupa mesmo o novo casal Macbeth é a imagem pré-estabelecida que se tem dos personagens. “À medida que você, como ator, vai encenando, vai esquecendo as referências outras. Você pode começar lendo com aquele peso de ‘ó, todo mundo sabe como é’, mas com a experiência você vai descobrindo que a própria visão que você mesmo tinha do personagem, e que corresponde mais ou menos à visão de quase todo mundo, é falsa. Quinhentas pessoas já fizeram esse papel, mas eu só posso fazer o meu”, desabafa Daniel, no coro seguido por Renata. “Fiquei com muito medo, no começo, porque parece que todo mundo sabe como a Lady Macbeth é: uma megera, maquiavélica. Então precisei de um tempo para descobrir o lado humano dela. No processo de criação, com o Aderbal, a gente tem procurado tirar essas capas de que ‘tem que ser assim’”, diz a atriz.
Aderbal, que recentemente dirigiu uma montagem contemporânea de outro texto de Shakespeare, “Hamlet”, por sua vez, adianta: “Numa história situada numa época distante da nossa, só faço o que Shakespeare fazia. O Macbeth, passado no século XI, na Escócia, era cheio de referências ao tempo de Shakespeare, que viveu em Londres, na passagem
do século XVI para o XVII. Se estou revivendo a peça agora, é inevitável que acrescente ao tempo da ação o nosso modo atual de olhar e de ver as coisas (não conhecemos outro). No fim das contas, como a peça trata de temas atuais, e por isso nós a montamos, o tempo do teatro é o tempo nenhum, isto é, todos os tempos".
Leia mais sobre o espetáculo aqui.
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