Reportagens

03-03-2010 ////////

Tormento de Euclides da Cunha

Peça revê tragédia pessoal do escritor

“Piedade”, em cartaz em São Paulo, traz o ator Leopoldo Pacheco na pele de Euclides da Cunha. A montagem, dirigida por Johana Albuquerque realiza suposto encontro póstumo entre o escritor, sua mulher Anna da Cunha (vivida por Jacqueline Obrigon), e o amante, Dilermando de Assis (Daniel Alvim) – personagens reais de um triângulo amoroso histórico que culminou na morte do autor de “Os Sertões”.

A montagem comemora os 10 anos da Bendita Trupe, parceria entre a Johana e Jacqueline. Pacheco foi convidado especialmente para o papel. Na trama, as três figuras centrais do crime ocorrido em 1909 se confrontam em narrativa que não aponta vilão ou vítima. O dramaturgo Antônio Rogério Toscano coloca o trio frente a frente, em um colóquio em que cada um tem a chance de dizer aquilo que nunca foi dito. “Este fato histórico é mostrado sem juízo de valor”, afirma Pacheco. “Eles reavaliam tudo aquilo, passado 100 anos. Tem momentos do texto que o personagem consegue ver a história com distanciamento, em outros, não”.

Flashes de cenas, depoimentos, memórias, fragmentos de cartas, diários vão trazendo a tona os fatos e sentimentos que antecederam, culminaram e sucederam o crime. “Toscano construiu um jogo quase cinematográfico que funciona muito bem”.

“Esta talvez seja a maior traição da história do país”, diz o ator sobre o crime conhecido como ‘A Tragédia da Piedade’. Euclides era um homem brilhante: escritor, sociólogo, repórter, historiador, geógrafo, poeta e engenheiro. Cobriu a Guerra de Canudos – que resultou na sua obra mais famosa -, percorreu a Amazônia em uma época em que se viajava a cavalo.

A intensidade profissional fez dele também um marido ausente. Carente, a esposa Anna se apaixonou por um jovem cadete de 17 anos, Dilermando, e teve com eles dois filhos, ainda casada com Euclides. Quando descobre a traição, o escritor e vai ao encontro trágico com os amantes. “Doente de amor e de ciúmes, numa passionalidade absurda, sai de casa pra matar ou morrer”.

Para entregar-se a um papel tão intenso, Pacheco buscou as sutilezas. “Euclides era um homem curioso, fazia da geografia e do sertão poesia. Tem um lado profundo e busquei olhar para isso para justificar a sua fragilidade emocional - que fez um brilhante intelectual tomar a atitude de tentar matar o amante da esposa.” A paixão é inimiga da razão.

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