Reportagens
04-03-2010 ////////
Brincando de boneco
Cia. Truks comemora 20 anos de intenso trabalho
A Cia Truks apresenta a Mostra Truks - 20 Anos, que leva 11 peças da trupe (mais três de grupos convidados) ao palco do Complexo Cultural da Funarte, em São Paulo. O evento revê a história do grupo comandado por Henrique Sitchin, um apaixonado pelo ofício que se orgulha de ter atuado tão intensamente nestas duas décadas, que quase não viu o tempo passar.
Bonecos, objetos, brincadeira. Em 1990, bonequeiros de diversas companhias de teatro de animação se uniram com a intenção de estudar a técnica japonesa Bunraku, para levar à cena a primeira montagem do novo grupo: “Truks: A Bruxinha”. Premiado, o espetáculo foi exibido durante anos e marcou o início de uma história empolgante que Sitchin comenta a seguir:
Os 20 anos: Para mim, a trajetória da companhia é antes de tudo uma dádiva em poder estar vivendo dignamente deste trabalho há tanto tempo. Estes 20 anos configuram uma história que também é de resistência. Não são muitos os grupos de teatro que completam duas décadas em pleno vapor. Me alegra constatar que essa história é fruto da verdade que colocamos em nosso ofício. Sempre fizemos uma arte ressonante com nossos valores, e muito cheia de emoção. Desenvolvemos uma técnica e uma linguagem própria, um teatro que tem a nossa cara. Escolhemos sempre falar daquilo que nos tocava o coração ou o pensamento: crianças de rua, perda da identidade, importância dos sonhos, entre tantos outros temas relevantes. A combinação de conteúdo com trabalho, verdade e emoção foi construindo a nossa arte.
Teatro: Entendo o teatro como um lugar de troca, que se dá entre palco e plateia. Gosto da troca humana e de ter em cena bonecos que parecem humanos, animados por gente como a gente. Ou seja, apesar de todo o nosso aparato técnico - são seis mãos em cada boneco - fazemos questão de sermos simples no palco, humanos, simpáticos, emocionalmente envolvidos com o trabalho. Com isso construímos uma trajetória muito coerente. Não somente, procuramos ser muito profissionais com tudo. Para a Cia. Truks cada apresentação é sagrada, não importa onde, como ou quando seja. Podemos estar em um teatro em Paris, em um super festival, ou no pátio de uma escola da periferia,. Não importa: todas as apresentações serão igualmente sagradas.
Evolução do segmento: Houve certamente um salto de qualidade no teatro de bonecos em todos estes anos. Hoje temos grupos excelentes atuando não somente em São Paulo como em todo o país. Eu destacaria os Grupos Morpheus Teatro (SP), Sobrevento (SP), Pequod (RJ), Giramundo (MG) e Caixa do Elefante (RS) . Creio que, assim como a Truks, são todos grupos fantásticos, reconhecidos mundialmente, e que surgiram ou ganharam notoriedade nestes anos. Hoje temos um circuito de festivais de teatro de animação por todo o Brasil, que nos dão a chance de conhecer produções estrangeiras, fazer cursos e oficinas. Isso influenciou por demais a melhoria da qualidade, e consequentemente a conquista de mais respeito desta arte. Há 20 anos, o teatro de bonecos era considerado uma arte menor. Conquistamos espaços e, principalmente, respeito. Hoje concorremos em igualdade de condições a todos os prêmios e editais do teatro. Temos uma série de programas públicos que nos embasam e suportam para que possamos fazer a nossa arte com dignidade e independência.
Público infantil: A relação das crianças com os bonecos é impressionante, absolutamente direta e instantânea. A criança acredita instantaneamente que eles têm vida e entra no jogo de comunicação com muita disponibilidade e alegria. Os bonecos pertencem ao universo das crianças. Antes de ganharem vida, já são brinquedos muito queridos. Na medida em que ganham vida, ampliando o seu mundo de conhecimento e sensações, tornam-se ainda mais poderosos e amados. Uma breve historinha acontecida aqui com o meu filho Caíque, de apenas dois anos. Temos aqui em casa um fantoche de pano que é um jacaré, com quem o Caíque adora conversar, sempre olhando fixamente em seus olhos. Certo dia, durante a conversa, Caíque acidentalmente arranca o fantoche da minha mão. Deixa o fantoche de lado, olha fixamente para a minha mão e pergunta, compenetradíssimo: “Jacaré, você ficou pelado?” .Eu costumo dizer que o teatro de bonecos é uma excelente iniciação ao teatro para crianças pequenas. É, digamos, um teatro mais seguro, menos assustador. Há, no entanto, excelentes atores que conseguem igual magia, de estabelecer uma conexão direta e instantânea com os pequenos. Atores experientes, sensíveis, com olhos adocicados, que trazem a criança a um mundo tão aconchegante como pode ser o mundo dos bonecos.
Bonecos para adultos: Se pensarmos que o teatro de animação tira do protagonismo da cena o ator de carne e osso, para colocar em seu lugar a coisa que ganha vida, podemos pensar que tudo pode ganhar vida em uma cena teatral. Isso amplia em muito as possibilidades criativas deste tipo de teatro. Há, portanto, um imenso campo criativo a ser explorado, nas artes cênicas, a partir do teatro de animação para adultos. Certa vez, em nossa oficina do Centro de Estudos, solicitamos aos alunos fazerem uma cena de amor em que os protagonistas não fossem atores de carne e osso. Construíram o romance impossível de uma vela e um cubo de gelo. O cubo de gelo, a certa altura, implora: “Não chegue tão perto, pois estou derretendo de amores por você!” A vela responde: “Mas meu amor, a chama do meu amor está se consumindo rápido demais!”. Entre outras deliciosas passagens. Cenas de amor foram feitas aos milhares na história do teatro. Mas a da vela e um cubo de gelo, acredito fortemente, talvez seja única em toda essa história. Tentamos explorar esta possibilidade em nossos espetáculos para adultos. Tem sido uma experiência muito gratificante.
A arte no Brasil: O teatro de bonecos cresceu em todo o país, de norte a sul. Tenho visto excelentes grupos por todos os cantos: em Belém do Pará há o incrível grupo IN BUST, com uma linguagem muito original. No interior do estado de Santa Catarina, o Grupo Trip Teatro, que vem se apresentando em festivais por todo o mundo. Recentemente estive em Gama, Distrito Federal, onde vi o surpreendente grupo Voar, em Curitiba a Tato Criação Cênica, igualmente encantador, e assim por diante. O cenário é muito animador. Hoje há festivais de teatro de bonecos por todo o país, com um crescimento de grupos e de qualidade artística.
A obra: “O Papel do Ator Animador na Cena Teatral”: O livro - que é lançado durante as comemorações de 20 anos - é decorrente da experiência adquirida em nosso projeto Centro de Estudos e Práticas do Teatro de Animação. Já é a segunda publicação do espaço. A anterior, “A Possibilidade do Novo no Teatro de Animação”, foi publicada em 2009. O trabalho promove uma reflexão sobre como a definição do papel do ator animador na cena teatral pode, não somente, auxiliar, como ter implicações fundamentais para a construção da dramaturgia específica para o teatro de animação. Fala também das questões relativas ao treinamento do ator animador, procedimentos necessários e muitos exercícios possíveis. Fazemos, com a publicação, vamos dizer, uma organização de todo o conhecimento prático conquistado durante todos estes anos. Há pouquíssima bibliografia sobre o teatro de animação em língua portuguesa. Espero que este título possa auxiliar a quem se inicia nesta arte, e também que possa servir para os debates sobre este fazer teatral.
Projetos: Neste momento temos como foco principal levar a mostra para outros lugares do Brasil. No mais, queremos seguir com as ações do nosso Centro de Estudos, e temos o projeto de uma nova montagem,intitulada “Por Uma Única Estrela”. Um espetáculo que será muito lírico e que conta a história de duas crianças que nascem e crescem juntas, mas que serão separadas pela vida. Contaremos a história toda sem a utilização de nenhuma palavra. Preparamos a publicação de mais um livro em que falaremos sobre os procedimentos da animação de bonecos, formas e objetos.
Saiba mais detalhes sobre a mostra
Veja vídeo sobre a companhia.
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